Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

31.7.07

SAUDADE DA LAPA BOÊMIA DE MINHA JUVENTUDE....

MINHA LAPA DOS ANOS DE GLÓRIAS

Quem é malandro?




Quando trabalhei na rua do Acre numa Importadora e revendedora de mercadorias de Secos & Molhados, recebia cartas de minha avó Alice Quintino de Lacerda pelas mãos de caminhoneiros que iam até este entreposto comprar alimentos que viriam abastecer a cidade de Macaé e as cidades visinhas. Eram os comerciantes Amphilophio Trindade, Erotildes Monteiro e Elpidio Costa .

Um destes caminhoneiros era o Raphael Monteiro , filho de Erotildes que morava numa casinha velha na esquina da Rua do Meio com Júlio Olivier.

A ida ao Rio era numa estrada de chão e mesmo assim chegava mais rápido que o Correio. A vida e o trabalho na Rua do Acre era uma experiência que marcou minha juventude. Trabalhava na Rua Leandro Martins, perto da Praça Mauá e pude tirar proveito deste tempo bom do Rio de Janeiro.

As ruas que faziam encontros com a do Acre, até a Central do Brasil tinham sotaque Lusitano durante o dia e a noite tudo se transformava. Já morava num conjugado em Copacabana e freqüentava a noite nas imediações do meu trabalho que era o ponto alto da boemia do Rio de Janeiro: Praça Mauá e periferia.

Em Copa era uma mini/burguesia ascendente e na Mauá uma pseudo/burguesia decadente. No final da noite não havia esta diferenciação. Gente do Bolero junto com as meninas da noite que furavam cartão no Dancing Avenida ou no Dancing Brasil tomavam café com leite pingado juntas com a malandragem da Riachuelo, Mauá e Cinelândia. Travestis desta época era chamado de viado mesmo e Sapatão de Fanchona.

Os palavreados nasciam na Lapa, subiam os morros e iam para Copacabana e Leblon. Vez ou outra chegava a Tijuca quando passavam com destino a Vila Izabel. A malandragem, os Proxenetas e Cafetões se esbarravam nas vielas dos becos do Centro e se podia notar o respeito quando, num balanço mágico de corpo, se sacava quem tinha ou não tinha navalha no bolso de trás.

As brincadeiras de "Tem Pente Ai"?, levando a mão na bunda do amigo, nasceu nestas buscas de navalhas escondidas. Nesta época, o Rio de Janeiro, lançou um pente que se abria em formato de navalha em homenagem a estas escondidas armas.

Havia um bandoleiro (carne-sêcacarne-seca) que usava esta arma para cortar pessoas quando o bonde deixava as madrugadas com destino a Muda ou Santa Teresa. Depois de longas maldades humanas foi preso e quase linchado nas imediações do Arco da Lapa. Era uma afronta para a malandragem ter o símbolo de Satã e gente enlameando a área.

Isto era um pouco do Rio nos anos 50...

Sempre tive uma alma excessivamente curiosa e ia em todas. As vezes no Dancing Avenida na Cinelândia, outras vezes estava no Dancing Brasil furando os cartões e sempre que podia, no final da noite, uma esticada no Bola Preta, lanchava no Ponto Azul e dormia mesmo na Rua Riachuelo ou Visconde de Maraguape quando não na Frei Caneca. Só ia para casa com o Sol do meio dia.

Quanto a Praça Mauá, suas noites eram alongadas e alegres. As Boites ficavam até o dia clarear, o Novo México, então virava o dia com gringos bêbados cheios de dólares que caiam pelas calçadas sendo levados por travestis e prostitutas espertas.

Antes que estas noites tivessem inicio gostava era de ficar tomando chope preto no Amarelinho onde se podia ver desde Madame Satã, indo em direção aos bondes de Santa Teresa, até Orlando Silva se deliciando com suas pingas e chopes de colarinho.

Foi ai que conheci o famoso chope Preto do Bar do Luiz na Senador Dantas onde mais tarde passeei com Lúcia em nossa lua de mel nos anos 60. Interessante que quando estive na Lapa, andando na rua do Passeio com minha mãe Ecila, e falei de minhas andanças e passeios com Lúcia, ela disse que era um coincidência, pois tinha sido ali que ela passeava com meu pai nos anos 40, quando se casaram.

Ou a Lapa era mesmo um ponto turístico ou houve uma bela e divina atração nossa por este local tão boêmio do Rio de Janeiro.

Havia uma esquina macaense numa loja de Dandão e Gó na esquina onde se comia os melhores Galetos do Rio. Sempre que a noite caia e antes que os Dancings começassem o seu piscar de luzes avermelhadas e, o Amarelinho aindainda a punha suas cadeiras estendidas no calçadão, era comum a gente ve muitos macaenses transitando no local.Pedro Paulo Viana, Enio Lima e Joãozinho, Jair e Jorge Siqueira, os irmaosirmãos AlvarezAlvares, Flamarion, Gurgel e uma dezenas de outros que a memória não põe nas pontas dos dedos que teclam. Era na loja dos irmãos de Aciollio Pena e dona Lopelina que estes macaenses passavam as tardes noites do Rio boemioboêmio dos anos 50.

O Rio de Janeiro foi uma escola onde não faltou nada. Estava ainda com l9 anos e tudo estava no tom do afloramento. Em Copacabana freqüentava a turma do Edifício Camões que era onde se concentrava a turma da Figueiredo Magalhães, Serzedelo Correia, Siqueira Campos, Santa Clara e toda a extensão da Atlântica conhecida como posto 4.

O Camões era um Edifício considerado o point dos anos 60 em Copacabana. Tinha rua particular que saia na Praia e de seu lado esquerdo t um casarão onde morava o velho Assis Chateaubriand que a gente ficava olhando-o levar amigos até a frente da casa.

Sempre de terno preto, com uma faixa atravessada no peito parecia até camisa do Vasco. Era se não me engano algo relativo a Embaixadas. Baixinho, sempre rindo e cumprimentativo, nem sabia que a turma estava ali só para bisbilhotar o velho dono dos Diarios Assoiados. O muro da casa do velho Chateaubriand dava para a rua particular do Camões e era fácil ver seu vulto, elegantemente vestido, levando uma famosa cantora dos anos 50 até a frente da casa. Se não me engano era Ester de Abreu.

A turma do Camões tinha sempre encontros agressivos com a turma da Monte Negro e da Prado Júnior. Uma espécie de Rua do Meio, Aroeira e Praça da Luz em Macaé. Quando havia alguma festa no Bairro das Laranjeiras havia um encontro era fatal algumas brigas. Lembro de Camilo, Reco e outros que gostavam das brigas. Sobre isso falaria melhor Joelson Franco Trindade que, sendo mais velho no Bairro, foi quem me apresentou a turma e morou mais tempo no camões...

As noites no Rio de Janeiro eram como uma faculdade de vivências O Novo México com suas bailarinas importadas de Caxias ou de Buenos Aires tinha o ar refeito de luzes que piscavam em coloridos pobres e danças desconcertadas por marujos desengonçados. Num canto da boate, uns proxenetas contavam sempre dólares amassados tirados de bolsas e bolsos sujos por entre e sa e entra de dedos.

Alguns destes dólares eram surrupiados por novas prostitutas Alguns ingleses e noruegueses passavam em passos bêbados e balbuciando a linguagem universal do etílico. Neste inteligível universal caminham, transando a rua para os barco ancorados na Mauá. Um balcão ainda sujo com restos de cervejas brilha quando o Sol começava a penetrar seus raios nas mesas vindo da direção de Niterói.

Enquanto um velho, de braços ossudos e óculos picinez, reconta moedas que resvalam no Raio do Sol e vinha até minha mesa, no canto esquerdo do salão, que fede a cigarro, cuba-libre e caipirinha com vodka. Era assim as madrugadas no Novo México numa das esquinas perto do centro da malandragem no Rio de Janeiro dos meus l9 anos.

O gordo do edifício da Radio Nacional estava sempre pré disposto a um longo papo nas madrugas.

Era ele que se fazia de delegado ou xerife de um Rio de Janeiro que, longe de ser violento, era respeitado em todos os Cais do Mundo pelo alto índice de afetividades entre seus famosos marginais de navalhas e pernadas...

As vezes indo até o BOLERO ou o CIROCO na Atlântica se podia diferenciar o ambiente. Algumas mulheres eram as mesmas e, se não fossem os métodos, poderiam se considerar na igualdade do socialismo mundano tão rico em peripécias e tão bonito de vivenciar. No Bolero alguns gringos. A maioria dos freqüentadores era mesmo da zona Sul e alguns forasteiros turistas paulistas ou mineiros.

A ainda não havia sido divulgado o Beco das Garrafas e os inferninhos ainda eram coisa de meninos e cocotinhas.O “Ciroco” era uma mini-boate. Havia o esbarramento com artista famosos que moravam em copacabana e iam nas noites.

Um piano tocado por Agostinho dos Santos em inicio de carreira e alguns boêmiosboêmios vindo do Antonius, ou do Jangadeiro, do barril l800, ou do Zepelin de Ipanema.

O Rio de Janeiro para mim, um menino saído das ruas empoeiradas de Macaé, tinha um caráter de curiosidade e encantamento. Claro que moleque criado nos bast fonds de Macaé, conhecendo desde Ermita até o Quadrado, passando por outras tantas das nossas noites, o Rio era como um Segundo Grau ou um Vestibular. Como não me dava bem nas aulas escolares, nestas aulas ia me saindo com notas acima de 7. Não entrava em bolas divididas nas noites e sabia onde estava e andava os meus limites e com isso fui sendo bem chegado ao ponto de em todos os mundos cariocas ter me dado otimamente bem como se estivesse sentado num barzinho das ruas puras de minha cidade.

O Barril l800 era onde se via os que podemos chamar de pequenos burgueses em alta e a classe média sul./norte em roupas de grife. A maioria era formada por freqüentadores do Alcazar, outro point da beira do mar de Copacabana, e que era onde se podia tomar de fato o melhor chope. Só era comparado ao chope do amarelinho ou do bar do Luís da Senador Dantas.

Quando ia no Jangadeiro era hora de se ver e olhar os velhos e famosos escritores e cronistas. José Carlos de Oliveira, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, e alguns dos novos escritores que viriam criar o Pasquim. O Zepelim era onde a concentração ficava por conta dos que viriam ser a jovem guarda dos anos 70. Nas mesas, desde Elis Leis Regina a Pedro Calmon e Peregrino Júnior. Ali também era presente um macaense da Velha Guarda. Beto Reis que com seu comércio de móveis TORA acalantava os desejos de artistas com seu designer moderno e bonito.

Uma mistura de música clássica com rock ou Bossa Nova.. Eu ainda não conhecia o Chico Chaves o que veio a se concretizar nos finais dos anos 70 numa revista do MAM que escrevi texto. Era a época dos finais da contra- cultura e neste revista falavam todos os artistas que vivenciavam a história. Chico Chaves entrevistava Caetano, Gil, Chico Buarque e outros. Veio até onde eu estava e me perguntou que eu fazia no momento em termos de artes. Falei que esculturava minhas formas em sorvete. Chico não perdeu tempo e tacou no jornal do MAM que eu estava esculpindo em sorvete.

Assim era este Rio de Janeiro onde as noites emendavam nas manhãs e o Sol se punha com toda a sua beleza dourando toda a extensão de Copacabana.

Foi um bom Segundo Grau na escola da vida. Mais tarde alguns macaenses foram tomando conta das noites. Lucas Vieira, de seu Manduquinha, foi tocar com Ivon Curi. Lucas, um dos mais requisitados pianistas das noites, recebia sempre os macaenses onde quer que tocasse.

Havia uma Macaé sempre presente no Rio de Janeiro e as noites haviam encontros que se prolongavam por horas e horas. O Rio ainda tinha o Ccheiro da e Ppaz que ainda não conhecia o arranhamento do desnível social. Morro era mesmo morro do Chão de Estrelas e a Lapa tinha ainda o cheiro das pólvoras da torre da Igreja que faltava e que Adelino Moreira colocou no Samba que Nelson Gonçalves cantava. Bater samba em mesa do Amarelinho em caixa de fósforo e harmonia nos pés era toda noite nas madrugadas do Rio nos anos 50.

As sinucas eram freqüentadas e o Carne Frita tomava seu café com leite calmamente antes de fechar o jogo da bola Vermelha ate a Preta , matando a 5, pegando a seis duas vezes e a sete no fundo. Era mesmo uma Lapa gostosa dos bondes de Santa Teresa e saídas para Tijuca e Meier.

Tudo girava em torno de um Rio de Janeiro bem interior e bem Carioca.O Bar Ponto Azul era sempre freqüentado por Carne Frita e sua turma das sinucas da Riachuelo e Centro. Madame Satã subia as ladeiras do Arco da Lapa num gingado típico das grandes marcas da malandragem.

A ausência de Noel era comentada por gente que o conheceu nas esquinas da vida do Rio de Janeiro. Benedito Lacerda compunha Normalista e Telefonista esperando uma ligação da cabina da telefônica de Macaé na esquina de Teixeira de Gouveia com coronel Amado. Célio Ferraz, que morou na casa dele no Rio, me conta, numa madrugada alegre no Bar São Cristovão, onde o Sylvio nos servia as delícias de um Feijão Pingado com Curvina Frita, que Benedito Lacerda criou as duas mísicas vendo as menininhas saírem do Ginásio Macaense vestidas de Azul e Branco.

A musica original era mais ou menos assim. “Vestida de Azul e Branco, trazendo um GM num bolsinho encantador..Depois ele adaptou. Trazendo um sorriso franco.

GM era a sigla de Ginásio Macaense que todas as meninas usavam na altura dos seios.

Como a ligação estava demorando para o benedito falar com sus Ondina, ele criou a “Telefonista, segundo o nosso CPF (Célio Pimentel Ferraz)...

José Milbs de Lacerda gama (editor de www.jornalorebate.com )

2 comentários:

Rúben Pereira disse...

Zé emocionante estas memórias. Mais emocionante ainda é constatar que apesar dos pesares a Lapa está viva ainda lá. Morei nos últimos 6 anos na Lapa e posso lhe afirmar que para quem sabe seus limites, como você mesmo diz em seu texto, está tudo intacto. Mudaram alguns nomes, mas a praça mauá, a riachuelo, os arcos, senador dantas, rua da carioca, amarelinho, bar Luis, tudo ainda ferve de noite e rala de dia.
O centro do Rio está a toda. E ainda tem o adendo da Gamboa, Santa teresa, Saúde, Glória e Santo cristo. Butiquins não faltam, grandes artistas misturados ao povão de passa-pra trás, putas, tias e travestis. Musica, muita musica. Ao vivo. Talvez seja a grande diferença, hoje a estrutura para musica está montada em muitas casas neste centro e antes só tinha estrutura em rádios, clubes e grandiosos eventos. Deu vontade até de ir na casa da cachaça da lapa e pedir uma. Belas lembranças. Rubinho

poli disse...

Seu José, tudo me fez recordar o passado por essas bandas. Mas vc. não se lembra do Bar Danúbio Azul? Embaixo do Novo México? Ali o chopp tb era maravilhoso. Obrigado pela crônica.Vou reler e cantar Cidade Maravilhosa. Abração.