Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

19.6.07

UMA INFÃNCIA FELIZ EM DEL CASTILHOS...

RIO DE JANEIRO DEL CASTILHO

Antes de ir para o colégio primário, aos 5 anos fui morar com minha avó e mãe no Rio de Janeiro. Lá já moravam meus tios Doca e José de Moura Santos, com meus primos Mathias, Nelson, Maria Clyce, Eliete e Therezinha. Foi uma infância curta de vivências em Del Castilho, um bairro bem calmo do Rio. Minha avó ia de trem até o Meyer e nós íamos juntos.

Era uma época de Guerra. 1943/44. Havia “blecaute” que a gente curtia a hora que chegava. E lembro que as l8 horas todo mundo se recolhia com receio de bombas. As crianças viviam tensas e os adultos preocupados.

As tardes eram de soltar balões num Campinho, que tinha perto da linha do trem de nome Maria Fumaça e, soltar pipas e balões...

Del Castilho era uma espécie de Subúrbio bem suburbano. As pessoas se conheciam, igual em Macaé. Um bairro afetuoso e que marcou muito minhas primeiras passadas na estrada da vida. Tinha vontade de voltar para ver como estão as ruas empoeiradas e lindas de minha infância lá.

Um dia, nos anos 90, conversando sobre isso com meu primo Nelson Lacerda Santos, ele falou que teve esta mesma idéia. Voltou a Del Castilho e ficou decepcionado. Tudo diferente e não viu nada que pudesse ser o belo de nossas infâncias.Haviam outras pessoas no lugar das antigas pessoas. Tipo qualquer cidadezinha de todas as infâncias vividas...

.Foi lá que aprendi a soltar pipas que chamávamos de Estrela. Os primeiros Balões e a correria quando caiam nas proximidades dos morros.

Nos campinhos, por entre dormentes de via férrea, entre um apito e outro da Maria Ffumaça e os blecauts das noites tardes do inicio dos anos 40 em plena 2ª guerra que foi que comecei a caminhar com meus próprios pés em andanças longe dos olhares vigiativos de mãe, tias e avó.

Não me lembro de nenhum amigo, mais tive muitos, neste Bairro que recordo com saudades.

As vezes fico pensando que as mudanças na vida fazem com que tudo fique girando em torno do momento. Foi assim nesta minha passagem por este subúrbio do Rio onde a volta para Macaé deve ter interrompido uma existência que seria totalmente diferente se lá tivesse ficado.

Os destinos são feitos assim e nele é que fixa a existência humana sem que tomemos pé de sua trajetória...

Um favelado levado para um reino se torna aristocrata ou chega a rei. Um rei levado para uma favela será favelado. Disse em livro um poeta de esquina. O destino trocado pode determinar existências trocadas. Foi assim nos covardes aprisionamento de Negros na África, transformados em escravos, e assim o é na diferenciação social que o sistema nos impõem...

Não sei como está hoje o bairro de Del Castilhos sem a Maria Fumaça e sem seus campinhos das peladas em bola de borracha ou de meias e os triangulos das bolebas e papão... (José Milbs)

5 comentários:

Airton Soares disse...

Não tem por onde, Milbs, ler sua crônica e ficar indiferente. Agora mesmo, trato de arrumar as minhas "as malas" e me mandar pro meu interior. Mas, vou desistir. Vou, por que o sofrimento é maior.

O real só existe em nossos arquivos. É do nosso `EU´ congelar no freezer do inconsciente as coisas boas e más também.

Parabéns pela crônica.

Um grande abraço
AS

Airton Soares disse...

Em tempo: onde se lê "Vou, por que...", leia-se "Vou, porque...."

Gilson Pontes disse...

Caro José Milbs - não podia passar em branco e não falar alguma coisa. Mas vc como escritor, a gente já percebe um trabalho recheado de qualidades diversificadas. Gostei do texto, principalmente porque todos nós temos lembranças que por demais tão boas e outras até mesmo ruim. Mas esse texto é o tipo daquele que a gente começa a ler e vai até o fim, pq a leitura dele nos leva pra isso. Parabéns!! Gilson Pontes

Anônimo disse...

grande ze milbs,
como sempre leio e releio os seus textos e muitas vezes copio e envio para os meus amigos, a fim de divulgar as bonitas historias da nossa querida macaé. voce está de parabens...
kaká

Jose disse...

Caro amigo,

Também tive o privilégio de passar a minha infância em Del Castilho, só que um pouco depois da sua época, entre os anos 60 e 70, mas vivenciei tudo isso que você relata. Estudei no colégio primário Manoel Bonfim (excelente colégio), soltei pipa, corri atrás de balões (inclusive foi lá que aprendi a fazer balões e pipas). Dia de São Cosme de Damião, nem almoçava e nem jantava de tanto doce que comia. Puxa! que saudades daquela época. Estive lá a 2 anos atrás, que decepção, era melhor não ter ido e ficar com as recordações daquele lugar tranquilo e feliz