Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

25.6.07

COISA DE CRIANÇA...

Coisas de criança em tempo de boas tormentas

José Milbs

— Puxa, vô, sabe da Martinha? Ô, vô!!! Aquela que o pai dela trabalha na Prefeitura.

— Sim, minha filha, o que tem ela? — respondeu feliz o Nicanor, quase que agradecendo a menina por tê-lo feito voltar ao real. Nicanor sabia que o diálogo seria esticado e isto fazia bem a ele, que gostava das longas conversas com as crianças, coisas que pareciam estar acabando.

— Ela faz aniversário juntinho comigo e com aquela menina que o pai também trabalha na Prefeitura. Só que o pai da Martinha é secretário do prefeito e o pai da outra — a Marta, que tem cabelos assim, oh, como falei —, trabalha no caminhão do lixo. Sabe o que ela me disse na Praça da Matriz, vô?

— Não. Conte aí — disse o Nicanor buscando posição mais confortável na velha cadeira que, pelo uso e tempo, capengava de um lado para o outro...

— É que o pai dela — quer continuar a menina...

— Dela, quem? Conta direito, Clara!

— Ô, vô! Da Martinha! A que o pai é secretário do prefeito, um homem gordão, careca e que anda com um outro, altão, bigodudo ...

A menina se ajeita nos braços do avô:

— Deixa eu contar. O pai dela perguntou o que ela queria de aniversário. Uma festa ou 5 mil reais para ela gastar como quisesse. Ela preferiu a festa. Ela disse, na pracinha, que o secretário gastou foi mais de 60 mil. Ih, mais até! Tanta gente que ela nem podia ficar com as amiguinhas. Ela disse que o pai dela e outros secretários da Prefeitura, todos, estão comprando terrenos, construindo, e que contratam um montão de seguranças para evitar os ladrões. Ela disse que a irmã do prefeito comprou uma mansão também, de mais de um milhão, de um vereador. Pagou assim, oh: pum!

Nicanor achou graça do relato da netinha. Olhava-a admirando sua beleza, seu espantoso crescimento físico e intelectual. E se perguntava pela forma que acabaria assumindo a narrativa, aquele estilo que enriquecia a cada dia, entremeado de opiniões curtas, decididas, definitivas, repleta de dúvidas e considerações filosóficas. “Mas que tempo ruim”, pensava ele. “Nossas crianças crescem em meio a uma guerra suja, imunda. Mas, talvez por isso, nossas crianças crescem e crescem, rápido... e falam dessa maneira, conspirando.”

— Ah, o que não vem por aí — deixou escapar Nicanor.

— O que, vô? Vem o quê? Bom, sabe o que essa menina falou? — continuou a netinha — que os amigos do pai dela e toda a família do prefeito estão preocupados com uns doutores do ministério da polícia...

— Ministério Público, Clara. É Ministério Público.

— ... mas deixa eu contar, vô! Então, o pai dela disse que estão investigando muito a vida deles, aqui na cidade. Os vereadores e todos os secretários ficaram ricos da noite para o dia. Dizem que querem prender eles, igual àquele menino que roubou um tênis do Adolfo, lá do bar, e a policia levou para a delegacia. Mas ela também acha que não vai dar em nada. Uma colega disse para a Martinha que os amigos do pai dela vão apanhar igual o menino do tênis. Aí, ela respondeu que eles têm advogados e muitos amigos nas altas. Mais, vô, a professora disse outro dia que a justiça é cega. É igual para todos, né? Eles vão levar uma baita de uma surra, não vão?

A menina fixou seus olhos nos do avô e, como que lendo seu pensamento, concordou:

— É, está bem, o senhor acha que não vai acontecer nada... Eu também.

II

Enquanto fala, os olhos lindos de Clara viajam por entre as dezenas de árvores, sobem e alcançam os pássaros lá no céu. Depois, focalizam duas borboletas amarelas que se aproximam dela e do ancião. Aqueles olhos tão vivos sobem de novo, ocupam todos os espaços —coisas que os adultos desaprendem com o tempo — e quase chegam às nuvens que anunciam mais chuva.

Nicanor e Clara ficaram por segundos abraçados, como se ouvindo o eco das próprias vozes até atingir a essência do pensamento humano e receber suas respostas. Dessa vez, nem a menina notou o cântico triste de uma cambaxirra na soleira da varanda, que lamentava a perda de seu ninho, seus ovos e seu esforço pela sobrevivência da espécie que um vento forte levou na noite anterior.

— Por que tem gente rica, vô? Rico serve para quê? Só têm carro importado. Todo rico é doente, vô? É por isso que as casas deles têm tanta privada? Mulher de rico, toda hora tem que ir ao médico. E eles não gostam de pobre. Não gostam de ninguém. Só da gente deles e olhe lá. Olham para os outros com cara de nojo...

Clara levanta rápido a cabeça e dispara:

— Isto é outra coisa que eu queria que o senhor me dissesse: é verdade que rico não entra no céu? Vô, eu acho que entra, sim. E quem fica do lado de fora é a gente. Só se não existe céu.

Volta a encostar a cabeça no peito do avô:

— Não posso dizer isso por aí não, né vô?

Novamente ergue a cabeça, rápido e, unindo as sobrancelhas, profere:

— Mas vô, eu tenho certeza que esse céu de anjinhos não existe, não.

Clara retoma, enérgica, balançando o braço de Nicanor sem lhe dar a menor oportunidade de esboçar uma única palavra:

— Vô, por que o senhor e o pai daquela menina pretinha... (Se lembra sim, vô, aquela, aquela, da casa que o senhor me levou daquela vez... Tava com goteira na sala...), por que vocês não podem comprar casa nem carro novo? O senhor, vô, trabalha o dia todo. Depois, fica sem dormir. Lendo, escrevendo... E não compra automóvel por quê?

A menina puxa carinhosamente o rosto do avô em direção ao seu:

— Por que rico não trabalha, vô? Eles só ficam com cara de preocupados. É feio falar mal dos outros, mas eu não gosto de rico, não, vô! Eu não gosto, não gosto...

O vento que assanhava os cabelos de Clara teimava em evitar que o sol permanecesse esverdeado na face de Nicanor. Ele olhava perplexo aquele pedaço de gente que já não acreditava na amorosas crueldades das histórias infantis, das lendas religiosas que as rodeavam. Suas amigas, umas menos outras mais, também não. Pareciam viver, o tempo todo, desmentindo toda a lenga-lenga criada pelos exploradores com seus direitos, justiça, noticiários, novelas...

Nicanor abraça a neta. Olha um horizonte que parece sumir em sua face já quase toda enrugada pelos anos. Como que querendo sussurrar para si mesmo, fala e é ouvido:

— Isso vai mudar um dia, minha Clara linda. Os do meu tempo, com vocês e com os que virão mais tarde, chegado o momento. Muitos trabalham e trabalharão para isso. Olha: a estação do ano está mudando. Mas também toda uma época social. Nem a natureza aguenta mais o regime de exploração, Clara. Os povos exigem um tempo novo, porque esse está caduco de fato e definitivamente uma nova época se faz necessária. Sem explorador e sem explorados. Esse tempo está chegando, porque o mundo anuncia um outro tipo de tormenta, minha Clara. E que venham as tormentas, porque essas nós as conduziremos pelos caminhos da nossa libertação, minha filha...

4 comentários:

Glórinha Anchieta disse...

Agradeço o convite para visitar sua página, eu fiquei encantada com tão belo texto...abraços fraternos e certamente voltarei

Airton Soares disse...

José Milbs consegue nesse artigo descrever- narrar - dissertar com detalhes e "claramente" nossa ambiência sócio-política.

O texto é simples,direto, contundente, mas sem agressividade. Graças à personagem Clara tão bem dirigida pelo autor.

Muito bom! Pra lá de Bom!

Cidadão disse...

Excelente texto. Dá uma idéia clara e limpa da opinião do autor sobre a estrutura na qual está montada a atividade política.

Parabéns José Milbs!

Att.;

Editor Chefe
CIDADÃO MACAENSE

Marisa Zanirato disse...

Parabéns, José Milbs!
Sua crônica revela o pensamento lúcido e crítico do autor.
Abraços com profunda admiração pelo seu trabalho!
Marisa