Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

23.3.08

O PINGUIN DA RUA D0 MEIO E OS FERROVIARIOS


OS FERROVIÁRIOS

Das longas conversas nas esquinas de uma cidadezinha, nos anos 40 50 e 60, chamada de Macaé, as coisas aconteciam devagar como o balançar das ondas alegres da velha Praia de Imbetiba...

Tinha todo o tipo de alegrias. Do sorriso largo e puro de seu Miranda pai de "Bill", "Pau -Puro" e Webe? alguém pode esquecer? Ele nos chamava de "meninos". Era assim que os velhos ferroviários como eles e Walter Quaresma tratavam os alunos do SENAI. Era uma espécie de "preparação no ritual para nos preparar, no afeto, para sermos futuros ferroviários. Passavam para nós o carinhoso olhar de paternidade que seria repassado por gerações. Até hoje o José Pacheco, um mais velho que nós, me chama de "menino" aos 68 anos.

Dentro do mundo de trabalho na ferrovia havia uma grande distância entre as pessoas em termo de idade e tempo de casa. Embora igualitariamente em todos os setores, como pagamento em chamada nominal no trem pagador, e outras tantas funções que exercitávamos, havia, na idade algo paternal no trato.

Era desta Macaé/Rua do Meio que eu sempre quis falar. Longe dos batuques de estacas e perto dos batuques das nossas Escolas de Samba dos Cajueiros, que não tem Caju. Aroeira que nunca vi um pé desta árvore e o Independente que teima em ressoar nos próprios batuques de nossos corações. Rua do Meio o onde habitou Wanderley Vianna, pai do belissimo amigo e fiel companheiro Alfredo Mello Vianna. O Bom New Alfred um dos mais conceituados cabelereiro da região de petróleo e um dos mais lidos colunistas sociais do O REBATE nos anos 70...

Esta cidade não cresceu. Ela inchou com algumas chagas que, poluindo a sua essência, ainda polui a própria essência nativa, transformando em novidades as vertentes naturais de um Rio que deveria correr para o Mar.

As tardes que banhavam o sentar descansativo de centenas de ferroviários, que se acomodavam na sombra da amendoeira do "Bar Mocambo", ainda são as mesmas. Tem o mesmo frescor dos anos 40. Apenas não recebem mais os vultos alegres, as fofocas e os fugidios momentos de encantamento onde as bicicletas eram as testemunhas e esperavam para serem tocadas até Imbetiba quando, o ultimo Buzo tocava anunciando a volta ou a ida dos Trabalhadores da Estrada de Ferro Leopoldina.

Era, destas figuras, que se misturaram a uma Macaé forte com produtos de filhos e netos que tiveram início nos anos 40, que me propus a escrever.

Pouca gente sabe e acho que nunca foi retratado em livros os inícios da vida dos ferroviários de Macaé no tempo dos Ingleses.Homens semi -analfabetos, pioneiros na formação de um trabalho se aperfeiçoavam na tarefa de mexer com as máquinas e ferramentas que chegavam ao ponto de dar aulas de conhecimentos a engenheiros estrangeiros que aqui vinham.

Eram das "Maria Fumaça", com seus vapores tocados a lenha, que se faziam a verdadeira história deste pais nos anos que antecederam ao Petróleo.

Desde Macaé, passando por Campos dos Goitacazes, indo a Cachoeira do Itapemirim, Vitória e Bicas, em Minas Gerais, homens e mulheres aqui aportaram e fizeram suas vidas nascerem. Filhos serem criados.Igual aos homens do Petróleo nos anos 80. Macaé é a única cidade do mundo que tem uma mistura tão acentuada e forte em sua genética. Desde a Ferrovia ao Petróleo esta mistura é a real motivação de aqui ter um povo extremamente cordial e universalmente feliz.

MOCAMBO

Nos anos 30 e 40, uma vala longa servia de banheiro coletivo onde, acocorados em tábuas e tijolos, os primeiros ferroviários viram nascer esta cidade no progresso da via férrea. Nos anos 80 os luxuosos banheiros, na descoberta do petróleo não diferenciam o objetivo comum da nova formula de progresso. Mudou-se o método mais o objetivo é o mesmo: cumprimento das necessidades fisiológicas.
Muitos que hoje, em luxuosos e cheirosos banheiros, são filhos daqueles desbravadores que tiveram, acocorados a uma vala fedida, a coragem de dar os primeiros passos para esta caminhada que se aproxima do fim.

'No Balcão do "Mocambo" não se vê mais seu Nicomedes com suas alegres risadas. Temos apenas que nos confortar com a ida de Gilberto para o balcão da "Taberna da Praia" onde ainda se pode recordar entre outros os velhos papos dos anos 50. Gilberto, "Dodô", Nilcemar "Mamá", "Nensinho Cauby" e Assis "Gozado", ainda são remanescente do autodidata que se esvaem nas escaídas de uma cidade que, some a cada tacada encaçapada, na história da existência e no ultimo gole de um chope gelado.

MANACÁS

A rua da Praia, cercada de Manacás, escondia os mal pagadores que, para não passarem na "Rua Direita" e serem cobrados, davam a volta por "detrás dos pés de Manacás" com destino ao cinema e a Boa Vista. Quando "neguinho" via algum se dirigindo para lá já gritava, em risos altos e terrivelmente mal aceitos: "Já vai, heim?

Ainda sinto o cheiro da maresia que vinha nas ondas de Imbetiba com peixes pulando sobre ondas e indo até a praia, pegos com as mãos. Não acreditam? Pois eu mesmo já apanhei muito peixe com as mãos nas pedras rodeadas de mar em Imbetiba e na pedra dos Cavaleiros onde hoje, as crianças do Projeto Botinho do corpo de Bombeiros, se reúnem.

Quando algum Ferroviário, mais elegante vinha pedalando uma Monark com aros cromados falavam aos cantos: De bicicleta "Novinha em Folha heim":? Até hoje não sei o porque desta frase "Novinha em Folha".

Quem gostava muito de desfilar com uma Monark colorida e,que acendia luzes ao toque mágico do freio na mão esquerda, era Lamanda e Maury "Loucura de Maio".

A ferrovia marca o início de uma transformação profunda na cidade nos anos 30, 40 50. Não só pela cultura que se misturava como pelo casamento com gente nativa. Miramar, Cajueiros, Aroeira, Imbetiba e Praia Campista foram as semeaduras destas misturas de sangues, vindo dos trilos das velhas locomotivas nas transferências de gente de toda a parte. O que acontece hoje com a Petrobrás, na mistura de gente e raças foi, iniciada com a ferrovia.

Num canto de mesa, do Bar Mocambo que tinha a amendoeira com sua vertente sombria natural e fesca, uma Velha Rumba sonoriza rastejante e assume o ambiente das recordações:

"Um dia.
Uma vez lá em Cuba,
dançando uma rumba,
disseram que eu era.

E o breque repetia em todos os ouvidos que viviam a época:

"Escandalosa
Escandalosa"

E todos iam ia assobiando e cantarolando com destina as Oficinas de Imbetiba a espera do Buzo do Meio Dia. No auditivo de todos os velhos ferroviários, o som da Radiola do BarMocambo de seu Nicomedes Aguiar.

MISTURA DE RAÇAS

Macaé ganhou com tudo isso a forte raça que desponta nos anos 2008 com belas e opulentas cabeças nascidas destas transformações. As misturas iniciadas no final do Século com a chegadas dos Petroleiros, fortaleceram ainda mais a vertente sanguínea de nossa formação nos próximos 20 anos. São homens de todas as cidades do Brasil outros do exterior que chegam a cidade e se amalgam as nossas culturas nativas.Trazem suas Histórias, suas Canticas, sotaques e Lendas. Seus filhos e filhas que com os nossos formam a cultura que não se encontra em lugar nenhum do Brasil.

Nos colégios, Públicos ou Particulares os meninos e meninas buscam fortalecer o vínculo de uma nova cidade que, saída do ciclo da Ferrovia, entra no ciclo do Petróleo com o fortalecimento de um novo afetivo entre seus descendentes.

Assim como nos anos 30 e 40, a nativa e pura Macaé recebeu os velhos ferroviários, ela hoje, nos anos 2000, recebe e se mistura com velhos Petroleiros que fazem revigorar o sentimento do amor universal que faz a cidade crescer. Novos bairros são formados com habitantes que chegam em busca de trabalho onde iniciam a troca de informes culturais e aprimoramento da nossa cultura nativa.

DAS NOSSAS FRIVOLIDADES

A gente fazia nossos "Barquinhos" de folhas de jornal ou de cadernos deixados, a correr, por entres pingos de chuvas em beiras de calçada. Era assim as Ruas que davam acesso a Praia de Imbetiba. Rua do Meio (Dr. Bueno), Rua da Poça (Luiz Belegard) e Rua da Igualdade (Cemitério). Ficavamos observando para ver onde iam nossos sonhos tão belamente vestido neste paraíso que só crianças e velhos podem ver e sentir. Barquinhos de Papel que viaja em muitas mentes infantis por este mundo afora. Barquinhos que o cimetar e o asfaltar das ruas deixou no esquecimento da poeira da vida... (José Milbs de Lacerda Gama, memorialista, cronista e jornalista. Editor de www.jornalorebate.com )



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Um comentário:

Lígia disse...

Boa noite!

Estou emocinada com este texto.

Macaense de nascimento e coração, amo observar a imensa diversidade que existe na cidade, com tantos filhos que aqui chegaram e chegam, como meu pai, que aos 19 anos veio e não mais retornou à terra natal, onde trouxe a família pois sabia que aqui era um local onde poderia ser construída a felicidade através do trabalho honesto.
O macaense necessita conehcer essas estórias para resgate de seu valor.
Feliz novo ano!