Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

4.2.08

"QUERO PÃO COM AÇUCAR, NÃO QUERO CAFÉ

As ruas empoeiradas do Bairro de Del Castilho, no Rio de Janeiro foi palco de minhas andanças com 5 anos de idade. Ruas que conhecia todas elas. Muitas soltando pipas, outras, na beira da Estrada de Ferro tomando carona nos trens e se encantando com o apito alegre da Maria Fumaça. Era tempo de guerra, anos de 1943...

Trilhos
Minha avó Nhasinha queria que a gente, nas tardes quentes do Velho Rio de Janeiro, tomasse café. Com pressa de voltar às ruas para soltamento de Estrêlas ou Pipas, gritávamos: "Quero pão com açuçar, não quero café". Era uma maneira de voltar rápido para as belas poeiras das ruas do Bairro. Vinha um pão sem miolo e cheio de açucar refinado.

RUA DA ESTAÇÃO PRAÇA DA LUZ RUA DA BOA VISTA AS PELADAS

AS PESSOAS QUE BATEM NAS PAREDES DA MEMÓRIA.

Voltei, aos 7 anos do Rio de Janeiro, Del Castilho para Macaé e fui morar na Rua da Estação, na casa de uma prima de minha avó que eu chamava de Tia Domingas. Esperávamos desocupar a casa da rua do Meio pois estava alugada.

Lá pude ter novos amigos. Ia muito na casa de Conceição Prata e Isolino Almeida, outros primos, e fazia meu ponto de criança curiosa numa relojoaria do Manoel Relojoeiro, que trabalhava ao lado de Seu Farias, pai de Rosane e Renê, meus amigos dessa Rua.

Sempre que podia ficava na varanda do Dr. Rodolfo, um advogado alegre, pai de Roberto, outro Rodolfo e, também pai de umas meninas simpáticas que sempre estavam alegres e felizes.

Uma delas veio a se casar com um ex colega de terceiro ano do SENAI Luiz Jorge que era irmão de Binhoa Ramalho meu colega de turma. Ruth ainda mantém a simpatia que tinhas nos anos de sua infância na rua da Estação.

O velho Advogado sempre mexia comigo pelo meu modo de sentar e cruzar duplamente as pernas. Do alto de uma varanda alta que dava para se ver a Rua, sentia-me grande ao olhar as centenas de pessoas que passavam vindos da Estação. Passei algum tempo de minha vida nesta casa. Brincava com os filhos de um caçador que morreu numa caçada de nome Arquimedes, com alguns amigos, “Maçã” que me colocou o apelido de “Pinguin” e que nunca mais tive noticias. Tinha ainda Virley e os filhos de Dona Arlete Pinto que sempre estava pronta para uma simpática atenção a todos com seus deliciosos doces e salgados.

Mais ao longe Sady e outros. Havia os maiores “Manoel Boca Larga”, “Tochinha”, “Vanir Vaca Brava”, Mardone. Flankilin Vieira, “Mirrolo”, Leone, “Paulinho Cabeção”, “Carlinhos Butuca” irmão de Décio, Cosme e Damião, “Paulo Cabeção” da Boa Vista. que já dominavam as esquinas da Praça da Luz, onde hoje é o “Colégio Estadual Luiz Reid” d e que foi palco do enforcamento de Mota Coqueiro nos tempos de meus avós.

Essa turma da Praça da Luz vivia em constantes brigas e provocações com a turma da Rua do Meio , dos Cajueiros e da Boa Vista.

Como eu era nascido na Rua do Meio, tinha estudado com Virley e Carlinhos Butuca na escola isolada I, tinha trânsito livre nas duas galeras e me dava bem nas paradas e em toda bola dividada.

As peladas da praça da Luz eram famosas. Mardonio, Tochina, Buruca, “Alan Birosca”, Fernando Valença, “Itinho Cabeludo”, Victor Hugo que mais tarde foi para o Rio e é pai de uma artista de nome Maiteé Proença que tem os olhos iguais a dona Hebe e dona Lia irmães irmãs dele.

Abelardo, “Birosca”, Mirian Almeida misturavam as essências da Boa Vista, Praça da Luz e Rua do Meio em constantes e harmoniosas brigas que rolavam nos dias de caçadas, jogos de bolinhas de gudes e Papão nas empoeiradas e salutares ruas de uma Macaé bocólica e alegre...

Enquanto os maiores jogavam os menores ficavam nas bolebas, triângulos e pique por entre árvores frondosas que iam até a Chácara de dona Yaya Vieira do outro lado onde hoje tem a “Fafima”.

Meninos da Praça Washington Luiz vinham apadrinhados por Ivair Borges que traziam Iney e Paulinho com suas vontades de voos mais longos que os que tinham as suas ruas periféricas. Chegar a outras Praças, jogar bolebas com outros meninos eram conquista que se revessavam nas amizades que teriam seguimento nas Matinés dos Cines Taboada e Santa Izabel. Muitos destas amizades, forjadas nas livres peladas das nossos Praças, se imortalizaram e hoje são recordadas com alegria com filhos e netos.

Quem não "torçeu" para os mocinhos ou para alguns bandidos nos faorestes das sessões das 3as e 5as. nos anos 50,60 e 70?

A casa do seu Rubens, pai de “Samuel, do Chaplin”, ficava onde ainda é. Samuel era amigo de meu filho Luís Cláudio e seus filhos Bruno e Andrei, de Zé Paulo. “Cassinho” filho de “Aryzinho” e Lucas de “Guto” completam a infância de Zé Paulo na Vila onde morei nos anos 80.

Sempre que Samuel vinha no meu sitio com Geraldo “Asa Branca”, filho de Jayme Franco, eu gostava de brincar com os desejos de “Samuca”ele. Eu Sabia provocar seu sorriso de menino ao mexer em sua malandragem escondida. O Sitio tinha um galo de pescoço pelado que, sempre que Samuel vinha, ele o rodeava cantando e cocoricando. Ele gostava do galo e eu disse que o galo era dele. Ao querer levar o galo, com intuito que eu já sabia ser uma panela cortei o seu barato dizendo:

"Este galo, “Samuca”, é seu mais fica aqui no sitio. Sempre que você vier ele esta ai sendo cuidado . “Se puder traga sempre alguns milhos que ele gosta”. Ele ria de soslaio Oo seu sorriso puro de menino, saído das poeiras da praça da Luz. Sabia estar sendo enganado no meu 171 maior que o dele mais gostava disso. Olhava para Asa Branca, catucava Tuca e Marcioney e sentenciava, ainda com a gargalhada por terminar."Milbs é muito forte. Bem que Marcioney dizia”.

As crianças da praça da Luz esticavam visgo e caçavam os papa- capins de ponto que vinham da mata onde hoje tem os bairros Miramar e Visconde.

O cheiro de mato ainda vem nas narinas da gente como uma recordação de um existente havido e que nos fazia viver. A vala negra que existe na divisão dos Bairros pela cidade, era limpa, pescávamos Piabas e Barrigudinhos que iam servir de iscas para Robalos no Rio Macaé sem poluição e feliz...

A manta de passarinhos chegava e com ela os tizius e cambaxirras avisando que era chegada a hora das armações de alçapão e redes. José Carlos “Preá”, “Pão Mineiro” da Bicuda já estavam com suas gaiolas vindos da direção do Mathias Netto. Passavam pela esquina do futuro “Caixote”, onde Eraldo abriria sua venda, e caminhavam a passos largos para a Praça da Luz.

Ricardo Madeira ia mesmo para expor seu Avinhado nas cercanias do forte e roubar alguns frutos na Chácara de Chico Lobo. Enquanto isso Geraldo Asa Branca ia mostrando o novo Papa Capim que Jayme Franco seu pai, tinha trazido de Rio Dourado e que cantava de mão.

Era mais ou menos assim as convergências desta infantil vida nos tempos das ruas empoeiradas.

Acho que todo Socialismo tem que ser cimentado no afetivo puro que brota da alma humana.

As crianças, criadas na era televisão, perderam o sentido da realidade natural. Uma cultura voltada a adaptação dos novos tempos não recriam o belo. Adapta-se ao feio, ao terrível mundo da massificação. Não sei onde isso vai levar a humanidade. Ainda mais tendo como dono da comunicação do quilate dos que editam as Tvs. Brasileiras nestes anos de 2008. São demonios que falam em deuses, que negam o vicio o os promovem em orgias sexuais de novelas e textos de apelo anti moral. Destruidores de infâncias.

Ainda aos 7 para 8 anos, cortava os meus cabelos loiros com seu Senízio Vieira que, além de barbeiro era médico espiritual com suas consultas e aconselhamentos. Dona Sula e Simonides completavam a alegria do conhecimento familiar. As vezes cortava o cabelo com Fábio na praça do Século onde seu vulto esguio e alegre sempre tinha algo novo para contar sobre Macaé e sua Gente. Outras vezes com Fanor, Cheiroso, Luiz ou Philadelpho na rua perto do O REBATE de Milton Madureira e Jorge Costa.

Na rua da Estação morei um pequeno e proveitoso tempo dos 7 até os 9 anos, se não me engano.

Seu Isolino que era casado com minha prima Conceição Prata me levava em seu sítio, onde andei pela 1a vez a cavalo. Com ele eu aprendi muita coisa bonita de interior. Falava de suas andanças a cavalo até Rio Dourado, Professor Souza e Casimiro.

Era um homem calado, mas comigo sempre estava rindo. Eu gostava muito era de conversar com Eny e Zilca suas filhas mais novas já que a mais velha quase não tinha tempo. Zézo era com quem eu mais gostava de brincar. Falava engraçado e quando não se fazia entender sorria com a gente...

No quintal de Tia Conceição tinha todo o tipo de fruta. Ela era uma doce mulher. Sempre alegre, por detrás de seus óculos brancos e de uma cor alva e divina.

Nunca vi essa mulher triste. Vinha sempre me receber, até mesmo depois de bem velhinha, com o mesmo olhar de santa que notabilizava sua existência de mãe e mulher. Engraçado que toda vez que eu chupo manga rosa, abio e caranbola me vem a mente seu quintal, sua escada da cozinha e seu belo cachorro. Será que todos são assim como eu nas recordações infantis? É uma dúvida do” autor que vus fala”...

Na varanda, após entrar pelas escadas e chamar numa porta sempre aberta, tia Conceição Prata vinha me receber e já me levava para a cozinha, sempre cheia de doces, frutas e comidas maravilhosas.C riou uma filharada e deixou marcado em Macaé a cimentação de sua vida.

Tia Conceição Prata era sobrinha de Tia Chiquinha Prata e Nizinha oriundas nossas raízes de Carapebus, do lado de minha avó materna.

Chiquinha Prata tinha ido morar no Rio onde criou os filhos Ary Prata Sodré, Pratinha, Ayres, Arina, Alvina e Loica. Sempre vinham passar ferias em Macaé onde se dividiam alguns na casa de Alvina outros na casa de minha avó Nhasinha na rua do Meio. Alvina morava na praça onde hoje tem o hotel de Marlécio e Lourdinha.

A pouco menos de um ano para terminar o século, recebi no sitio, a visita de Ary que veio ver minha mãe Ecila. Hoje afirmo que eles estavam se despedindo deste mundo. Ele era, nesta época tesoureiro da Congregação Baptista do Brasil e foi deliciosamente belo ver as recordações que ele e minha mãe iam revendo de suas infâncias em Macaé e Carapebus. Como observador pude quardar os seus belos olhares de alegres e festivas recordações e fui guardando estes momentos para pode hoje terminar este texto certeza de que presto uma grande homenagens a minha velha Macaé e seus vultos históricos.

Semana passada recebi a visita de Glorinha Prata. Veio em companhia de outro prima Mariland Prata Mancebo. Trouxe uma foto minha com 6 meses. Era uma fotografia que a mãe dela, Iracema, guardou por 68 anos. Veio dos arquivos de Tia Chiquinha Prata. Este troféu eu recebi emocionado e vou resguardar.

Mariland é um das mais alegres de todos os filhos e Alvina Prata, uma sobrinha irmã de minha avó Nhasinha. Alvina foi uma das essencias macaenses. Nascida em Carapebús, foi uma das primeiras moradoras da Praça Veríssimo de Mello, onde seu filho Marlécio construiu o Hotel Prata. Afilhada de Nhasinha Lacerda era, em sua casa, que todos se reuniam nas festividades de Natal e Ano Novo...

(José Milbs de Lacerda Gama, editor de O Rebate www.jornalorebate.com 75 anos de Histórias na Região de Petróleo do RJ e vivenciador dos fatos narrados)...

Um comentário:

Ivan disse...

Com muita atenção e emoção eu li o texto porque tem a ver a minha infância e vida. Isolino Almeida é o meu pai. Nasci em Macaé, mas vivi os meus primeiros anos em Rocha Leão, onde meu pai tinha o sítio. Minha mãe era Dna Melita Xavier (também falecida). Hoje tenho contato com Nélio Prata e Zilca, pois moram aqui no RJ. Poderemos continuar conversando sobre suas memórias? Ivan Xavier