Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

31.5.09

DONA IVONE MANHÂES COELHO, PAULISTA DE MARILIA, ARTISTA, MODELISTA MORRE NA REGIÃO DE PETRÓLEO, AOS 81 ANOS








Gostava das Orquídeas do Sitio e pediu-me uma muda. Caminhou e se despediu, como se flutusse em pensamentos, ornando com sua experiência, a vida de dezanas de sêres humanos que nasceram de seu ventre. Feliz quem deixa este mundo,deixando a saudade de netos, bisnetos e amigos, como Dona Ivone...

Como falar de uma mulher que convivi durante mais de 50 anos? avó de meus filhos e bisavó de meus netos. Dona Ivone era uma destas pessoas que sempre estava a disposisição para ouvir, dar olhares de afeto e apoio e afago aos seus inumeros netos e bisnetos.
Artista e modelista era passava o tempodesenhandoe bordando lindos enfeites para presentear os amigos. Eu mesmo recebi dela 3 belos panos de prato com lindos ornamentos.
Dona Ivone veio ainda jovem para Macaé. Conheceu e se casou com Eduardo Trindade Coelho. Viveu durante os últimos 60 anos em sua casa na Rua Francisco Portela, na cidade de Macae´, Estado Rio de Janeiro, onde educou e criou seus filhos Lucia Maria,Sonia Maria e Eduardo Manhães.
Com o falecimento de seu companheiro, Eduardo "Seu Dudú", a vida não tinha muito sentido para esta linda artista plástica e modelista de grandes criações. Esteve algum tempo aqui na Estância Vista Alegre, dedicando o tempo com plantios de mudas, regando flores e semeando carinho com seus netos Luis Cláudio, Ana Cristina, José Paulo e sendo paparicada pelos bisnetos Mariana, Ana Clara e João Pedro. Gostava de receber visitas e telefonemas de tantos outros bisnetos.
Vira e Mexe ela me confidenciava que sentia muita falta de seu companheiro e estava um pouco cansada desta vida. Mudava de assunto e falava de seus trabalhos em pano e em grafite.
Falava de sua visita a Grécia e delineava detalhes para os ouvidos atentos de todos quando se via cercada em longas conversas.
De Dona Aydê Manhães, sua irmã que mora em Cananéia, ela sentia imensa saudade e recordava de Nina Manhães, sua outra irmã com imorredoura saudade.
Brincava com seu neto Luis Cláudio e dizia que queria morrer para se encontrar com seu companheiro...
A última vez que estive com Dona Ivone foi a uns 8 dias. Sentamos em sua varanda, falamos de flores, de pessoas e soube dela as últimas novidades da Rua onde morava.
Se era uma despedida, não sei, mais hoje, ao receber a notícia de sua morte, em telefonema de sua filha Lúcia eu senti que Dona Ivone se despedia de mim neste dia. Nunca ela tinha ficado tando tempo conversando nem eu. Creio que falamos mais de duas horas.
Morre uma mulher que sempre se orgulhou de ser Paulista de Marília. Seus pais foram os fundadores desta linda cidade de São Paulo queum dia, nos anos 70, visitei. Conheci seu Tio Arquimédes Manhães e sua Tia Laurita. Ambos amigos do Presidente Getulio Dornelles Vargas.
Dona Ivone tinha história. Deixa uma legião de netos, bisnetos e muitos amigos.
(José Milbs de Lacerda Gama editor de www.jornalorebate.com )

21.5.09

Já não existe mais confiança nos peixes; Perigo de contaminação. Bons tempos os do vendidos em cestos com cobertura de folhas de galhos esverdeados...

Cestos nas cabeças com calos nos escantilhados das faces, olhar de brilho alegre ao descarregar os produtos para serem manuseados e comprados, era bom este relacionamento em anos de saudades na região de petróleo do Rio de Janeiro.
Homens de meia idade vinham anunciando os peixes pescados com a certeza que estamos vendendo saúde. Nos mercados de hoje é temeroso uma compra destes velhos habitantes do Mar...
A Pedido de um leitor publico minha cônica "JOGA A REDE NO MAR' que foi publicado no Jornal "A Nova Democacia" e no "O Rebate"


Eles habitavam toda região do litoral do Rio de Janeiro. Corpos morenados pelo sol sem os protetores e nenhum deles com doenças de pele. Suas redes, tecidas a mão por suas companheiras e filhas, tinham o sabor da arte e do bom gosto. Sempre alegres e de olhos acessos e avermelhados, estes senhores dos mares eram figuras presente em toda história nas cidades que habitavam.

Cabo Frio, Búzios, São Pedro de Aldeia, Rio das Ostras, Barra do Rio São João, Macaé, Farol de São Tomé, Ata fona e São João da Barra eram locais em que seus barcos, com pequenos motores e bastante experiência de mar, os levavam nas noites enluaradas e de manhãs amenas. Enchovas, Gordinhos, Galos, Marimbas, Serras, Espadas, Pescadas, Pescadinhas e siris do mar, eram sempre o produto de suas noites onde as gaitas, o velho rádio de pilha e um violão com 4 cordas, deixavam em aberto o coração de volta e mais volta aos lares...

As beiradas das praias estavam sempre cheias de muita gente. As chegadas dos barcos, passando pelas ondas bravias, eram saudadas por centenas de acenos. Mulheres e filhos se juntavam a outros na expectativa de ver o produto de mais uma noite de pesca.

Os pescadores tinham saído de suas simples e aconchegantes residências em plena madrugada. Antes tinham olhado o céu, reparado de onde vinha o vento e, antes mesmo de apagar as luzes dos candelabros de seus quintais, já estavam assoviando cânticos e cordiais acenos aos vizinhos que se juntarão a outros e partirão para o alto mar...

A pesca tinha a essência do belo artesanal. As vendas eram feitas ali mesmo nas praias e o que não era vendido, era colocado numa cesta, coberto com galhos de matos, tirados ali mesmo na restinga e levados nas bicicletas pelas ruas da cidade.

Os anos arquejaram os senhores do mar. Suas redes apodreceram estendidas nos quintais em enferrujados arames. Os barcos, virados de bunda para cima estão totalmente danificados pelo tempo. Esses bravos trabalhadores do mar, hoje de olhos caídos e "encostados no INSS", nem de longe lembram aqueles corpos sarados e olhares brilhantes dos anos de sua juventude...

A herança dos segredos duramente colhidos na vasta extensão de água salgada do mar, de suas artimanhas e ventos, outras vezes herdados de seus pais e avós não podem ser passadas para seus filhos e netos. Apenas a história de casos ocorridos em suas longas noites pode chegar aos ouvidos dos pequenos netos e filhos.

Os braços, estendidos deixando à mostra a pele enrugada e a tez flácida, apontam para ilhas e pedras. Lá, eles comentam dos grandes barcos que habitam os mares. São barcos de bandeira estrangeiras ou de falsa bandeira nacional. Dentro deles, contam a seus filhos que os olham admirados:

- Tem um vidro que vê onde está o cardume. Eles apertam um botão e sai uma rede de fios finos que pegam todos os peixes. Filhotes, fêmeas com ova na barriga, tudo eles levam para longe. Acabaram com tudo - diz, e seus olhos deixam cair uma lágrima que se junta às dos meninos...

15.5.09

Das memórias de Dunga, Luiz Cláudio Bittencourt, que O REBATE publica...



A Foto que ilustra é do Zé Luiz que ainda mantem a simplicidade de uma existência herdada de sua infância em Itaperuna. Cercado de amigos ele ainda está firme e forte e se relaciona, com elegância, com a Mãe Natureza...

Luiz Cláudio Bittencort
, o nosso Dunga que também se assina como Izio Engo, faz parte das belas vivências da Região de Petróleo. Filho de meu amigo José Luiz Bittencourt que tinha um dos mais belos sorrisos que aportaram em Macaé, cidadezinha do interior do Rio de Janeiro. José Luiz era um caminhar sempre alegre e cumprimentativo que tanta falta faz neste frio mundo das virtualidades e progressos. Tinha nas plantas e na natureza fiéis parceiros. Muito tempo que não vejo o bom Zé Luiz...
Hoje, recebo com grande prazer textos de Luiz Cláudio, poeta, músico, amigo e grande momorialista. O REBATE faz presente as recordações de um belo tempo que todos temos nesta passagem terrestre. Poucos podem. como Dunga, velho participante do festival de Música de O REBATE nos anos 68, privilegiar-se destes feitos.
Com seu texto todos, independente de ser da região ou não, navegam no belo de um mundo que se abre a cada piscar de memórias...


Amigo Zé Milbs, obrigado pelas publicações dos meus textos. Realmente a grande intenção deles é simplesmente mexer com as lembranças das pessoas, foi um tempo muito bom !!!! Gosto da nossa cidade, gosto das histórias que as pessoas contam de seus tempos, e muitos guardam, guardam, e elas vão embora com eles. Estes textos foram escritos em 2002, em uma época difícil que eu estava passando, e resolvi fazer estas viagens. Ainda trabalharei em muitos outros e estou te mandando alguns que eu já havia soltado - são pipas !!!! Só para você fazer a sua viagem já que a nossa distância de idade é tão pequena.
Grande abraço e muito obrigado pelas publicações.
dunga

* O SACI E A JABUTICABA *


Era meados de setembro quando, num dia bem cedinho, cheguei lá no sítio e encontrei o meu pai, quase que de joelhos, a apreciar um pé de jabuticaba que ele havia plantado já há algum tempo. Fiquei intrigado! Estaria ele rezando aquela fruteira??? Nos cumprimentamos e aí perguntei o que estava se passando . Ele respondeu : - O cara, de quem comprei esta fruteira, garantiu que , com mais 5 anos , ela estaria dando frutos, mas, vigio, vigio, vigio, e nem sinal de nada, nem uma bolotinha verde colada ao caule. Aí, um desses capetinhas que vivem rondando a gente, veio ao meu ouvido e cochichou uma idéia que mexeu bastante com o meu lado moleque, mas, não passou disto, terminei a visita e fui embora.
Passaram-se alguns meses e, em uma outra ida ao sítio, percebi, junto ao pé de jabuticaba, um tomateiro anão repleto de tomates pequeninos e bem verdinhos, aí me lembrei do capetinha !!! E o pior, fui conivente com a maldita idéia !!! Catei um monte daquelas bolinhas verdes, arranjei pedacinhos pequenos de arame e, com uma tremenda delicadeza inspirada pela maldade, os colei no caule da fruteira. Até então, nem um bom dia eu havia dado ao meu pai, pois, o envolvimento com a cruel brincadeira não me havia permitido ainda. Cheguei perto dele e perguntei: - Zé, você já viu que a jabuticabeira frutificou ??? Ele olhou para mim e respondeu : - Você está brincando, Deus não seria tão bom para comigo, já estou convencido de que vou morrer sem vê-la frutificar !!! Você está errado, disse eu, ela está lotada de frutinhas !!! E que trabalho para colar aqueles todos tomatinhos no caule da fruteira , e a dor nas costas !!!. Zé largou o que estava fazendo e se dirigiu ao local, onde tantas vezes já havia ido, em busca de confirmação do que eu estava lhe dizendo. Quando se agachou de novo de joelhos junto ao arbusto, e viu aquele monte de bolotinhas verdes a enfeitar o caule, um pranto de felicidade nasceu naqueles seus olhos já com quase oitenta anos. Aí, fui apunhalado pelo remorso,e percebi, bem junto aos meus ouvidos, a risada cruel do capetinha, tanto pela mentira que o meu pai estava sendo vítima, como pela dor que se instalaria neste meu coração de filho mau, e que poderia durar para sempre. Passados alguns momentos, e com o meu pai já recuperado da emoção, fui obrigado a revelar a cruel brincadeira. O velho virou um bicho !!! Cerrou os punhos e desabafou uma bronca que eu já nem lembrava mais, bronca de pai zangado !!! E foi neste momento que o meu amigo HAIAIEL chegou junto ao meu outro ouvido e disse : - Não há uma justificativa correta para o que foi feito, maldade não se faz em hipótese alguma !!! Mas, tem um paliativo !!! O seu pai, na condição de grande gozador que também o é, depois da história que você vai contar, talvez ele releve, e aí a coisa poderá ficar mais amena. E deixei a idéia do meu amigo para depois, não era o momento certo, o velho estava bravo !!!
No outro dia, voltei ao sítio e percebi que a indignação dele estava mais suave, e resolvi arriscar os argumentos que o meu amigo anjo havia falado. Perguntei : - Zé, você se lembra quando eu, nos meus poucos 6 anos, escutei uma história, vinda de você, que o SACI PERERÊ existia e que era fácil pegá-lo ???? Fiquei curioso com a sua história e perguntei qual tipo de armadilha poderia ser usada para tal captura. Aí você foi mestre, tão cruel quanto eu, porque criança de 6 anos está diretamente proporcional a um velho de oitenta, em termos de inocência, um por ter vivido pouco, outro por já ter vivido demais. E você não perdoou !!! Explicou com precisão a fórmula mágica de como pegar o dito SACI : – Olhe bem , meu filho, pegue uma garrafa de cerveja vazia, lave bem lavadinha, arranje um pedacinho de repolho roxo e o coloque dentro dela, deixando-a destampada. No dia de lua cheia, coloque-a no fundo do quintal, só se pode deixar uma luz acesa, e, quando o relógio der meia noite em ponto, ele aparecerá e entrará na garrafa para comer a isca. Aí, é só correr e arrolhá-la. E, o mais importante, nem sempre ele vem na primeira vez, é preciso paciência e novas tentativas !!! E, com a mesma inocência que ele olhou os tomatinhos, eu fiquei meses, nos dias de lua cheia, a espreita de um SACI que nunca apareceu nem para dar boa noite. O fato é este, seu Zé, eu também já caí em uma de suas esparrelas!!! Acredite que não fiz a falsa frutificacão com intuito de vingança, mas, acho que estamos empatados!!! O velho sorriu de lado, bateu no meu ombro e falou : - Pois bem , continuarei na minha espera, quem sabe não viverei até aos 100 anos !!!!
Três meses depois, recebi um recado que era para eu ir urgente ao sítio, pois, uma grande surpresa me aguardava. Pensei em um monte de coisas e não cheguei a conclusão de nada que poderia ser uma grande surpresa, mas fui conferir. Chegando lá, fui saudado com um enorme BOM DIA, acompanhado de um sorriso largo. - Venha ver a surpresa que eu tenho para você. Comecei a segui-lo e percebi que se dirigia em direção ao pé de jabuticaba, pensei comigo, não pode ser !!! Tem molecagem aí !!! Mas, qual o que, eu sempre soube que Deus protegia, com muito mais carinho, os velhos, bêbados e crianças, e constatei!!! A fruteira estava lotadinha de grandes bolas negras, bem coladinhas ao caule e com todo aspecto de fruta bem doce, pasmei !!! Aí ouvi a voz do Zé, bem pertinho do meu ouvido, dizer o seguinte : - O seu Saci, continua solto e você com a garrafa atrás dele, acho que nunca vai pegar !!! Mas, na minha história, as jabuticabas saíram do pau e o senhor não vai provar nem umazina desta primeira safra, só no ano que vem!!!
Fiquei muito feliz!!! Tão feliz a ponto de fazer chover em meus olhos, e como agradeci ao meu amigo Deus. Tirei um grande peso da minha alma e, com a paciência necessária, aguardei pela próxima frutificação, e ela veio, tão certa como aquele homenzinho de uma só perna nunca entraria em minha garrafa!!!

Moral – acho que a minha pregação de tomates verdes, no caule daquela jabuticabeira, foi
um dos melhores trabalhos de acupuntura feito por um leigo!!!


IZIO ENCO
12/10/2003


O BACHAREL E A MELECA


Manhã de segunda-feira, sol brilhando no imenso céu azul e mar tranqüilo, um dia pedindo para ser dedicado à preguiça. Um jovem bacharel em odontologia desperta para mais uma etapa de serviços, veste-se impecavelmente de branco, só faltando turbante para ser confundido com um daqueles pais-de-santo famosos. Em seguida, sonolento ainda, dirige-se ao local onde pegaria a condução para o consultório.
Garoto novo, bonito, esguio, chamando a atenção das mulheres para a sua elegante postura de Doutor. Chega a condução e o alvo cidadão procura um lugar bem juntinho a uma janela e instala--se. A condução parte e, com olhos mais despertados, deixa que os seus pensamentos saiam pelo vidro e passeiem pelo horizonte marítimo, tendo a ilha de Santana ao fundo. Certa vez ouvi alguém dizer que homem quando fica com cara de bobo e olhar perdido no horizonte, com certeza está pensando em mulher. Mas, certamente, este não seria o problema do dia e que direitos teria eu para cogitar sobre os pensamentos do amigo, mas, que estava com cara do bobo, estava !!!!! Tinha gato escondido naquela tuba!!!
E lá foi o ônibus em seu trajeto, com o nosso personagem relaxado em corpo e pensamentos, junto àquela janela que mais parecia um televisor de tão interessante. Aí, sim, cometeu o pecado do dia na inocência de um gesto que jamais poderia ter sido público, e isto sem saber que estava sendo observado. Enfiou o dedão no nariz, aquele que abre a bochecha da gente para espiar dentro, e começou uma daquelas brigas, que todos conhecem e um dia já brigaram, com uma grudenta meleca adornada com um cabelo que saiu junto no momento em que foi arrancada. Depois de colocá-la para fora, passou da fase de briga para a de enrola-enrola, parecia mais estar tendo um orgasmo quando deixava a bichinha, já em forma arredondada, passear entre seus dedos.
Depois de alguns minutos já passados, sentindo que a dita cuja já havia perdido a consistência, colou-a na parte lateral do assento, retornando assim aos seus distantes pensamentos, aqueles!!!
Quase chegando próximo ao seu destino, uma senhora que, por não ter nada melhor para fazer, foi a observadora de todos aqueles malabarismos que ocorreram naquele canto de janela, sob a cor branca da limpeza. Deu sinal e desceu. Indignada com o que havia visto, e contam que ela estava indo a um dentista, não deixou por menos. Aproveitou o tempo em que o sinal fechado reteve a condução, caminhou até a famosa janela e, com o seu próprio dedo enterrado até as profundas do nariz, insinuou um gesto que qualquer um melecudo entenderia perfeitamente: - Tirando meleca, doutor??!! E com aquele olhar metralhante, de quem parecia mais ter visto uma cena de adultério, partiu para o seu destino: para as mãos do DENTISTA!!!
E lá seguiu o moço de branco para o seu consultório depois de não ter mais nada a fazer do que esboçar um sorriso, um tanto quanto amarelado para a profissão que exercia. Espertamente evitou conferir se outras pessoas também teriam sido testemunhas daquele ingênuo gesto matinal, e, com a mesma tranqüilidade que estava desde o início, retornou a sua janela, porém com as mãos cruzadas, e viajou novamente nas asas DAQUELES PENSAMENTOS!!!!!!!!!!!!

Izio Enco - 2002

*A ANTE-SALA DE RADIOTERAPIA *


19/05/2000 - AGUARDANDO A VEZ PARA TRATAMENTO DE UM CÂNCER ATRAVÉS DA RADIOTERAPIA.


NITERÓI (RJ) - (12:12:00 horas) - Acabei de passar pela rua Lara Vilella nº 191, lugar onde morei durante 5 anos e que foi um marcante ponto de partida para o meu alcoolismo. No local onde funcionava a pensão da Dona Ritoca está plantado atualmente um belo e luxuoso prédio. Sem muito sacrifício, consegui localizar o local exato onde ficava o porão que eu adorava ocupar, um úmido e mal ventilado espaço pequeno no qual morávamos em número de três. Lá o bicho pegava! Álcool, bolas, maconha, risadaria, violão, porradaria e, muitas vezes – lágrimas! Não senti saudade nenhuma quando passei por ali, foi um tempo ruim, um tempo perdido nos dois sentidos da palavra. Mas, não o foi por todo! Serve hoje como alicerce da minha sobriedade e felicidade, naqueles dias do passado eu era profundamente infeliz e sem um norte.
Aí, passei por onde foi o bar do Sr. Nelson e, hoje, como estava escrito lá: O BAR DO CEZINHA. Bem movimentado! Um grupo de estudantes tocava um pagode, muitas cervejas sobre as mesas, falatório alto e risos. Neste local, toquei muito violão, tomei muita birita, matei muitas aulas e não descobri porra nenhuma da vida. Não senti saudades. Talvez eu nunca mais passe naquela rua por livre escolha, ali fui profundamente infeliz e por muitas vezes pensei em suicídio.
Mas, lembro-me de um fato muito importante que ocorreu em minha vida ali naquele trecho de rua. Dizem que: - Se conselho fosse bom, não era dado, era vendido! Uma dessas burrices máximas que as pessoas não pensam antes de repetir. Ali, naquela mesa de bar e sem garçom, um amigo virou para mim e falou na bucha: Amigo, você não faz outra coisa a não ser matar aulas, tocar violão, fazer zueira dentro da pensão, arranjar confusão quando está bêbado, não dorme e não deixa dormir – e acha que vai ser médico?!!! Estão abertas as inscrições para o concurso do Banco do Brasil – isto em uma época em que os seus funcionários eram o seu maior patrimônio – porque não o faz?
Fiz, passei, fui trabalhar em São Paulo, e levei um bom período ganhando mais do que ele que havia se formado em medicina há pouco tempo. Que Deus o ilumine sempre por este conselho tão acertadamente dado, e ouvido! Essa foi uma das duas grandes curvas que mudaram o rumo da minha vida: esse conselho dado por um amigo chamado ROCK, e a outra foi quando um amigo oculto me sugeriu ir aos Alcoólicos Anônimos só para conhecer. Portanto, muito cuidado ao repetir as coisas sem pensar no que elas realmente querem dizer!
Hoje estou aqui, bem próximo deste local de ativa, cuidando de um câncer que está sob controle. Sou outra pessoa graças aos novos caminhos que busquei , encontrei e luto para me manter neles - os caminhos dos grupos de ajuda mútua. Sinto-me forte e orgulhoso! Luto com todas as minhas forças contra a morte e, se a ela sucumbir, será com dignidade e fé. Acredito na existência de um outro lugar onde as coisas devem ser mais claras. Tenho vomitado bastante por causa das seções de radioterapia e até andei reclamando com Deus. Mas, já parei. O meu câncer é muito leve em comparação ao que tenho visto por aqui, cresci! Viver é a maior das aventuras e desafios. Vez em quando, é bom que passemos pela corda-bamba, pois, ela nos leva a reflexões de crescimento, e como leva!

CONTINUO NA SALA DE ESPERA –
(12:28:00 horas) - Hoje vou para Macaé, ZUP!!!! Essa ida para a minha cidade é uma das máquinas que me impulsionam e serve de alento nas horas de solidão, dentro do apartamento no Vital Brasil, ajoelhado em frente a uma privada e botando os bofes para fora. Um momento de quase desespero. (O banheiro é a igreja de todos os bêbados, já dizia o CAZUZA em uma de suas músicas). Que bom que este tempo já passou em minha vida, reconheço-me um sóbrio vomitador! Mas não reclamo, só um pouquinho!!!. Sei que tudo isto é em prol de uma cura com a probabilidade de 99% de sucesso. Só para ilustrar: - além dos vômitos, estou com um dente inflamado e doendo, precisando fazer o canal. Uma distensão muscular que me obriga a andar igual a uma pessoa de 90 anos. Não é fácil, mas é o meu caminho! Podem ter sido causados pela terapia.

CONTINUO NA SALA DE ESPERA – (12:32:00 horas) – Passou um senhor com um aspecto horrível, agora começo a conhecer mais de perto as facetas do câncer, a dor e as depressões de alguns. O caso do senhor foi causado por cigarro, atingiu o pulmão e ele continua a fumar. Disto, o tabaco, eu também já estou livre. Emociono-me escrevendo. Paro, respiro fundo e contenho algumas lágrimas, tenho vergonha da emoção , que merda! A doença e o tratamento afloram por demais a nossa sensibilidade, tenho experimentado também uma leve depressão que não permito crescer em minha cabeça, procuro ajuda.

CONTINUO NA SALA DE ESPERA – (12:34:00 horas) – Aprumei de novo. Ainda tenho mais três semanas pela frente e preciso vencê-las custe o que custar. O bom é que tenho um PODER SUPERIOR que me ajuda e me inspira, aprendizados de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.
E a vida continua lá fora: - o fantasma de uma pensão que não foi escola, o grupo feliz de pagode tomando as suas cervejinhas, o cheiro que as ruas têm e não o perdem nunca, uma lista de nomes de pessoas que por ali passaram na minha época, e a imagem do prédio da pensão da dona Ritoca, junto ao Marília Mattoso.

CONTINUO NA SALA DE ESPERA – (12:38:00 horas) – E eu aqui esperando a minha vez, perdido em meus pensamentos e viajando nas asas da nostalgia. Depois, passarei pela sala azul e pelos sons da radiação. Em seguida, irei ao apartamento e, na solidão do banheiro, cumprirei a rotina do mal estar e vômitos. Aí sim, rodoviária e ZUP para Macaé!!! Com direito a dois dias de trégua!

CHEGOU A MINHA VEZ – (12:45:00 horas) - Lá vou eu, animado apesar de todas as dificuldades e incômodos do tratamento. Vou ficar bom !!!!!!!

Escrito na Rua Presidente Pedreira – Ingá – Niterói (RJ). Maio/2000
IZIO ENCO

Considerações de hoje: naquele quarteirão morei na pensão de dona Ritoca, nele o meu filho alugou um apartamento para morar assim que foi para Niterói, nele me tratei de um câncer e estou bom até hoje, nele comprei um apartamento no exato local onde foi a pensão, e nele, ao lado da pensão, fundou-se um grupo de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS que já salvou um monte de vidas !!!!!! E ali, recebi um dos grandes conselhos de minha vida – e não foi vendido!!!!
Na época, o que muito me ajudou foram dois amigos de Niterói que marcaram presenças muito importantes nesta minha briga de talvez 50 dias. O meu eterno muito obrigado!!!!

IZIO ENCO / 03/04/2009


A PRIMEIRA TELEVISÃO
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO – 04/11/2002



Lembro-me, como se fosse hoje, do meu primeiro contato com uma máquina de diversão chamada - televisão. Ao lado de nossa casa moravam uns vizinhos muito especiais chamados: Dona Lili e Seu José Henrique. Ali funcionava a primeira garagem do Rápido Macaense, e esta companhia de ônibus pertencia a citada família. Tivemos também o prazer de sermos vizinhos do CAFÉ SÃO JOÃO, que também a eles pertencia e funcionava no mesmo local. Consigo, até hoje, me lembrar do cheirinho do café quando estava sendo torrado, passava certeiramente pela copa de nossa casa e alcançava o nariz da minha mãe que dizia com entusiasmo: - Vai lá comprar um pacote de café porque está saindo agora! E como éramos bem atendidos pela Romilda!
Mas, retornando ao planeta TELEVISIVUS e as minhas distantes recordações, eles foram os primeiros da rua a comprarem um desses aparelhos e, Dona Lili, com seu pequeno tamanho e bondade imensa, ligava para a casa de minha mãe (tel-349) e a intimava a mandar-nos até a casa dela para que assistíssemos ao Circo do Arrelia e desenhos do Pica-Pau. Depois, lembro que o Seu Landor (pai de Fred) também comprou um desses aparelhos e encontramos um segundo lugar para vermos também: Falcão Negro, Mike Nelson, Zorro e tantos outros programas em um encantador preto e branco absorvido totalmente pelos nossos olhares infantis.
E, depois de um bom tempo de filações, veio uma para a minha casa: - enorme e pesada, da marca EMERSON! Tão cheia de figuras aventureiras como as outras, e foi uma festa!
Eu gostaria muito que a Dona Lili e o Sr. José Henrique recebessem o carinho das minhas recordações como se fosse uma prece de agradecimento por estes inesquecíveis momentos de minha infância. Como é bom relembrar estas pessoas que tivemos o privilégio de partilhar, lado a lado como bons vizinhos, nesta estada no planeta. Que Deus os ilumine cada vez mais!

Observação: O Sr, Edmundo, pai de Tulucho, poderá ter sido o primeiro técnico em televisão na cidade de Macaé. Se estiver errado, que o dono da posição me perdoe!!!!
E me tornei um eterno viciado em televisão, essa grande companheira de tantos solitários!

IZIO ENCO

O MEU PRIMEIRO BEIJO DE LÍNGUA
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO - 04/11/200
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Aconteceu na casa do meu primo Tim Mosquitinho, em um dos seus aniversários quando eu tinha os meus doze ou treze anos, no dia 29 de junho em uma grande festa com foguetes, fogueira, batata-doce, bombinhas, fogos e tudo mais que o Tim e São Pedro teriam direito. O tio Julinho era muito animado para aquelas festas, botava para quebrar! A criançada se divertia muito, subiam balões, bombinhas explodindo no meio das pernas das velhas, e a coisa era muito boa. E foi com esta festa de fundo que aconteceu o meu primeiro e inesquecível beijo de língua.
Depois que eu já estava algum tempo por lá, avistei uma menina, talvez um pouco mais velha do que eu, com cabelos vermelhos e pele sardenta, que me olhava de um jeito gozado, eu era um verdadeiro boca aberta e custava a perceber quando alguma menina estava dando ponto! Mas, já gostava muito de meninas, e que não fiquem dúvidas! Aproximei-me dela e iniciamos um papinho inocente que acabou chegando a um jogo de purrinha, e valendo o que? Aí ela olhou bem dentro dos meus olhos e sugeriu: - beijos? Gostei da idéia e imediatamente começamos o jogo. Depois de uma rodada de dez partidas, nas quais eu havia sido o perdedor, ela cobrou o pagamento. Como estávamos em um lugar um tanto o quanto escurinho, juntos a uma parede de chapiscos que existe lá até hoje, não fiquei constrangido em pagá-la, e dei o beijo. Ela olhou com cara de surpresa e perguntou-me: - Que beijo é esse? O que você fez com a sua língua? Onde está o gato? Murchei um pouco e disse que aquele era o jeito que eu sabia beijar - encostando os lábios! Riu e me chamou de caipira. Ela era de Niterói, e perguntou se eu queria aprender a beijar de verdade. Nesse exato momento senti que, além de estar perdendo nos palitinhos, estava perdendo também em conhecimentos gerais - e topei! A ruivinha encostou-me contra a arrepiada parede já citada, colou aqueles lábios carnudos nos meus, juntou as suas cochas nas minhas, e enfiou uns trinta centímetros de língua dentro da minha boca, pelo menos foi esta a impressão que tive. E viajei!!!!!!!!!!!! Quando voltei daquela sucção tão gostosa, além das costas raladas pelas irregularidades do paredão, a minha cara deveria ser de quem acabara de testemunhar um milagre - abobado e quase nocauteado!
Recobrado os sentidos, esquecemos dos palitinhos e ficamos um grande tempo nos pagamentos, eram mais gostosos e eu havia aprendido com grande facilidade. Foi uma festa e tanto !!! Quando cheguei em casa minha mãe perguntou porque os meus lábios estavam inchados. Fui ao espelho e confirmei, talvez um grande excesso de sucções em prol de um aprendizado juvenil. Mas, para a minha mãe, foram as batatas quentes da fogueira! Nas costas, alguns pequenos arranhões deixaram grandes saudades, e a minha pintadinha professora acabou retornando para Niterói.
Trocamos algumas cartas, recebi cartões de natal, e cada um tomou o seu caminho, conforme a vida nos obrigou, ou escolhemos. Mas, em minhas recordações, moram até hoje lembranças de sensações como: - a esperteza daquela língua tão comprida a arregalar os meus olhinhos caipiras, a gostosa dor do seu corpo a me espremer contra aquele muro de chapiscos, a sedosa valinha que havia entre os músculos de suas costas, e da sua sedenta vontade de ensinar. E no céu, fogos e fogos! Tim Mosquitinho ficou mais velho e eu havia aprendido a beijar de língua, e que língua!!! Com movimentações tão precisas, capaz de causar inveja a qualquer lagarto!!!
Que Deus a ilumine em qualquer lugar onde esteja, pois, esses são os anjos que passam por nossas vidas e deixam marcas inesquecíveis.

Izio Enco

O MISTÉRIO DOS BEIJA-FLORES
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO - (04/11/2002)


Alguém trouxe, não sei de onde, uma história muito interessante que envolvia beija-flores e um desejo muito grande que vivia passeando pelas nossas cabeças, moleques de 9 a 11 anos, descobrindo os prazeres do TESÃO!!!! Contou-se que, se conseguíssemos matar oito pássaros daqueles, tirar as cabeças e torrá-las até que virassem um pó bem fino, havia um poder nisto que nos interessava bastante. A jogada era a seguinte: se você tivesse vontade de ter relação sexual com alguém, era só esperar esta pessoa fazer xixi, não dar descarga e, em seguida, você jogava o milagroso pozinho junto com a urina. Aguardava alguns minutos e, conforme o palavreado inerente ao assunto “JÁ ESTAVA NA RETA PARA SER COMIDA!!!!“.
E, baseado nestas informações, deu-se início a uma cruel caçada aos beija-flores. Conseguimos matar 16 (dose dupla) e, em seguida, partimos para torrar e socar. Daí para frente consistia somente em vigiar algumas dessas pessoas desejadas e os seus momentos de urinar, se a privada não desse o ronco tradicional do “vai pra baixo“, era só correr e jogar o miraculoso pó!!!
Até que um dia a coisa aconteceu. Um dos nossos disse que havia conseguido colocar o pó em um dos poucos momentos em que a descarga não roncou. Aguardou os minutos da bula e partiu para se esfregar na perseguida, com aquele tradicional papo de CERCA LOURENÇO. E deu certo, e alguém foi comido nesta história!!!! A sandália da mãe dele COMEU SOLTA no lombo do dono da poção mágica, depois da assediada ter reclamado e ameaçado ir embora. Logo após o acontecido, nos foram apresentados os vergões da surra e bem fresquinhos, só faltando a assinatura - “Havaiana”.
Diante de tal fracasso e já um pouco saturados por também apanharmos por outros motivos, jogamos os pós dos pássaros na vala da estação, só faltando as solenidades de pós-morte.
E novamente a paz voltou ao reino dos beija-flores, junto ao velho pé de manacá.

Izio Enco

O MENINO QUE TINHA MEDO DE GALINHAS
UM TRECHO DA MINHA VIDA - IZIO ENCO (04/11/2002)


A minha mãe era daquelas que não dava moleza para filho, a hora de ajudar, era a hora de ajudar! E não tinha conversa fiada! Algumas obrigações eram estabelecidas para mim como: varrer o quintal, tratar das galinhas, molhar as plantas, colocar os caixotes de lixo para fora, estudar e, depois de cumprir todas essas tarefas, poderia ir para os lugares onde a criançada se reunia para brincar – normalmente no maravilhoso campo de esportes que havia nos fundos do Matias Neto.
Com o passar do tempo surgiu uma outra obrigação e, com esta nova tarefa, passei a ter mais dificuldades em virtude de um item – ter que carregar as galinhas compradas na feira!!! Com os meus 11 ou 12 anos fui eleito o novo ajudante de compras na feira livre. Lembro-me que, uma das primeiras que tomei parte como ajudante oficial de compras, era localizada próxima a beira rio, ao lado da CERJ. Levantávamos cedinho, pegávamos um farrancho de bolsas, e partíamos para as compras do dia que, normalmente, era as sextas e sábados de manhã.
Aí, mamãe começava as escolhas – Vamos lá que os ovos de seu fulano são mais bonitos! A mandioca de seu cicrano é maior e mais macia! E eu chamava a atenção dela por falar desta maneira, e ela ria! Ali também nos divertíamos muito! Passávamos pela barraca de seu Isac e ele, com aquelas bochechas avermelhadas e cara de feliz, gritava – Ovo e uva boa !!! E as viúvas que por ali passavam entendiam – Ô viúva boa!!! E olhavam com cara de zangadas, mas, acho que algumas até se orgulhavam da observação! Até que chegava o momento mais complicado para mim, a hora de comprar galinhas! Mamãe sempre escolhia duas das bem pretas! Encostavam-nas no meu peito e dizia – Segura! E o medo que eu tinha daquelas merdas de galinhas! Atrevidas! Até a minha mão ousavam picar, e como eu suava frio! Aí começava a briga – Segura! - Não seguro! - Segura! - Não seguro! E eu acabava levando um cascudo na cabeça, e tendo que segurar aquelas duas galinhas que mais pareciam estarem sendo levadas para uma macumba. E terminava desfilando com aquelas duas belas companhias mais um tanto de horas. Aí descobri um macete, e quem passou a dar cascudos fui eu, nas galinhas, é claro! E, estas por sua vez, entendiam que era melhor para todo mundo ficarem bem quietinhas.
Mas, haviam coisas prazerosas também naquele fazer a feira. Ali, minha mãe comprou para mim os meus primeiros pés de orquídeas (um vício que está entranhado em minha alma até hoje). Comíamos sempre algumas bobagens gostosas como salgados e frutas. E passar pela barraca do seu Dengo! Eu tinha um olho comprido em uma coisinha dourada, de olhos azuis, que quase sempre estava lá a ajudar o pai. E ficava muito feliz quando a minha mãe parava por lá.
E depois, a feira foi se mudando para outros lugares, perdi o medo das galinhas, deixamos de ir a pé e passamos a usar a bicicleta e o carro. Chegou a hora de estudar fora e acabei perdendo o meu posto de ajudante oficial de compras, que eu já vinha ocupando por muitos anos. Tornei-me um parceiro e tanto da minha mãe!
E as feiras, com todos os seus participantes e entretenimentos, foram mudando de lugar, ficando espremidas, sendo derrotadas por novas modalidades de venda, quase só ficando nas lembranças de alguns saudosistas e no coração daquele menino que tinha medo de galinhas.
Hoje, quando passo por aquele pedaço de rua, consigo escutar os sons das ofertas, as risadas das pessoas, a gritaria das galinhas quando eram seguradas pelas pernas, e o mais importante deles: SEGURA ESSA GALINHA, menino cagão !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Homenageando: Isac, Dengo, Valdecir, Chico Bitu, Alfredo, Zé das Parasitas, e a tantos outros que ali – com dignidade – nos atendiam em festa e criavam as suas famílias.

Izio Enco


HI-FI INOCENTES BAILES
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO (04/11/2002)

Eram pequenos bailes que aconteciam nas casas, normalmente para uma garotada de 12 a 17 anos, com ponche e muita alegria. Em minhas lembranças o primeiro que recordo foi na casa da Ana Maria, filha do senhor José Honório, uma menina muito educada, carismática e inteligente. Lá conheci os primeiros discos dos Beatles, descobri que eu não sabia e nem gostava de dançar (o que acontece até hoje), que era um cara extremamente tímido, timidez esta vencida muitas vezes à custa de tanto álcool que acabei me tornando dependente (uma fatalidade que acontece muito na juventude e os pais deveriam sempre estar muito atentos). E estas festinhas aconteciam mais ou menos em 1965.
Estes pequenos bailes eram rodiziados em casas diferentes, inclusive na minha própria casa, regados também a ponche , salgadinhos, coca-cola, Roberto Carlos, The Fevers, Renato e Seus Blue Caps e Beatles, que ainda não deviam ter noção do quanto iriam significar e influenciar a juventude mundial e tantos outros cantores da época. Uma coisa que tenho muito orgulho é de ter tido a música dos Beatles como o mais presente fundo musical de toda a minha adolescência, não poderia ter acontecido coisa melhor, em época melhor!
Como foram importantes para mim estes primeiros bailes na casa da Ana. As primeiras paqueras, conversinhas nos cantos, os modismos da época (botinhas beatles, calça calhambeque, chapéu calhambeque, anel de carcará, mugui etc...) influenciados - como acontece até hoje - por vários cantores e artistas. E tudo mais que encantava os nossos mundos de crianças trocando de penas!
Infelizmente, a Ana Maria ficou pouco tempo em nossa companhia. Junto com a Sônia, irmã do amigo Roberto, perdeu a vida em um acidente quando fazia um passeio, se não me engano, a São Paulo. Um deslizamento de terra pegou a condução que elas estavam quando passavam em determinado trecho da estrada - na Serra das Araras. Mas as duas, com certeza, estão em um lugar bem melhor do que este onde vivemos nos dias atuais. Um lugar com canções tão belas como aquelas executadas em nossos pequenos toca-discos e que encantavam tanto os nossos corações de meninos e meninas despertando para a vida. Saudades da Ana e daquele tempo de inocência. Que seja permitido a elas receberem essa emoção tão gostosa que neste momento, ao escrever estas linhas, passeiam pelo meu coração de amigo saudosista.


CAÇADA DE RÃS E PESCARIAS
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO (04/11/2002)

Antes de me enfiar no mar atrás de peixes e lagostas, claro que influenciado como muitos daquela época pelo Mike Nelson (Aventuras Submarinas), dois dos meus esportes prediletos eram: pescaria de caniço e caçada de rãs.
As pescarias normalmente eram realizadas na vala da estação, cruzamento com a Rua Conde de Araruama, lado direito de quem vai para o Miramar. Ali ficavam uns oito moleques com os seus pequenos caniços a pegar piabas, mandis, cumbacas, traíras e acarás, sem contar que um de nós, vez em quando, despencava dentro daquela vala, não tão poluída como agora, mas, com uma água ainda limpa apesar dos esgotos que recebia dos bairros vizinhos. Além da pescaria, ficávamos também a conversar fiado - um infinito falatório de crianças, acompanhado de risos e provocações. Coisas de pixotes! E, entre um papo e um atrito, peixes eram fisgados e mantidos vivos em latas com água. - Se comíamos os peixes? Claro que sim! Esgoto naquela época não matava ninguém! Acho que os cocos eram mais sadios, coradinhos, menos cheios de química e até serviam de alimento aos pescados! Coisa ruim que acompanhava as pescarias era quando um dos mandis atravessava o ferrão no pé de alguém, que dor! E tinha que tirar na hora, na marra! Diziam que, se encostasse um cigarro aceso, o veneno era eliminado e a dor diminuía, mas, a da queimadura era claro que ficava! Trocávamos seis por meia dúzia! E estas foram as minhas primeiras experiências na a arte do pescar. Atualmente, quando passo por ali, estico os olhos em direção ao local e chego quase a escutar as inocentes e felizes risadas! Um bem adquirido e impossível de ser roubado - esta lembrança e a saudade que ela faz nascer!
Na caçada de rãs havia alguns macetes. Eu preferia caçá-las à noite, depois das chuvas e com lanterna (meu presente preferido nos natais, com ótima luminosidade e pega). As caçadas normalmente eram realizadas na vala que cortava o campinho do Seu Juca ou na vala da estação. Entrava-se na água (até o joelho) com a lanterna ligada, passos silenciosos, um barbante na cintura para servir de fieira e muita atenção. Era bem fácil pegá-las! Com o tempo, ficávamos ágeis como gatos e as fieiras, no final da noite, continham 20 ou 30 rãs PACUDAS (de tamanho grande e normalmente macho com grossos braços). Outra modalidade consistia em pescá-las no VIRADOURO DA ESTAÇÃO, com caniços e uma florzinha que era usada como borboleta de nome CU DE CACHORRO. Ao ficarmos sacudindo a flor, a rã pensava tratar-se de um inseto e a engolia com voracidade. Aí era só fisgar e cantar de bom! Mas, no fundo, a minha caçada predileta era nos alagados, com riscos de cobras e outros bichos peçonhentos. Certa vez enfiei a mão em num ninho de rã (formado por um monte de espumas que ela produz para colocar os ovos) e puxei uma grande surpresa: - uma linda cobra da água! O parceiro olhou para mim, franziu a testa, e adivinhou: - joguei no pescoço dele! Tomei umas duas porradas, daquelas bem nervosas, mas foi bom demais! O cara tinha pavor a cobras!

Izio Enco

JOGOS DE BOLA
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO (04/11/2002)


Na esquina da Rua Marechal Deodoro com Alfredo Backer, em um grande terreno ainda sem construções, próximo ao VIRADOURO DA ESTAÇÃO DE TRENS, ficava o nosso campinho de peladas. Hoje, esses campinhos foram ocupados por prédios e, em virtude do grande crescimento de nossa cidade, os moleques peladeiros não têm mais os espaços disponíveis que existiam naquela época, com vassouras que rasgavam os dedos dos pés, cacos de vidro jogados por moleques de outras ruas que queriam também ter direito ao nosso espaço. Mesmo com toda essa briga, era muito gostoso sabermos que aquele campinho era só nosso, e que poderíamos jogar bola a hora que bem quiséssemos!
Ali tentei encontrar a arte do futebol, mas, só jogava mesmo porque era o dono da bola, uma bolinha de couro número 1, novinha! Mesmo sem talento e só sendo escolhido porque era o dono da peça principal, tenho saudades daquelas partidas em dias quentes de chuva, nas tardes depois do colégio ou, quem sabe, todos os dias se as mães assim o permitissem.
Lembro-me que, certa vez, estávamos jogando uma partida quando chegaram uns homens de JEEP, com uma grande escada e hastearam em um poste de ferro, em frente ao nosso campo, uma enorme bandeira comunista. Isto deve ter acontecido pelo ano de 1962 ou 63. Pouco depois, veio o golpe militar e começou o “prende-prende”. Mas, de uma coisa tenho lembrança muito viva: - ficamos parados, quase hipnotizados, com o tamanho e cor daquela linda bandeira! Aí, poucos dias depois, vieram outros e a tiraram do poste. E a pelada parou outra vez!
Agora, voltando ao gramado, a minha carreira de jogador foi muito curta, não tinha jeito mesmo para a coisa, era muito ruim! Perna de pau! Foi aí que a substituí por pescaria de mergulho e violão, começava a encontrar os meus caminhos, comendo lagostas e tirando um terceiro lugar no Festival Estudantil Macaense de Música, tendo o pessoal do PASQUIM e Egberto Gismonti como jurados. A cantoria era mais fácil!
Outro aspecto interessante, quanto ao nosso campinho de futebol, era que, de vez em quando e como que num passe de mágica, víamos os ciganos chegarem e armarem as suas tendas coloridas ali, no nosso campinho! E isto virava festa para os moleques da redondeza! A gente ia para lá e procurava ajudar naquilo que era possível, mortos de curiosidade quanto àquelas pessoas. Lembro-me que certa vez, depois da cigana ter lido a minha mão, perguntou se eu não gostaria de fazer parte do grupo, o meu entusiasmo com aquilo tudo era muito grande! Lembrei-me das histórias, contadas pelos mais velhos, de ciganos roubando crianças e, para mim, a partir daquele momento, acabou a festa! Só reapareci no campinho quando as barracas dali já haviam desaparecido. Mas, que fofoca gostosa era ver aqueles ciganos em suas atividades tão diferentes para nós!
Hoje, eu consigo perdoar a um senhor que, certa vez, furou a nossa bola por ter caído na casa dele, não quebrando nada! Já devia estar saturado disto, entendo hoje! Ou não, como diz o Caetano Veloso! Foram 9 estocadas de canivete, na redondinha, aos olhos de uns 12 moleques, olhos que não queriam acreditar no que viam! E lá se foi embora a número 1 de couro! Tão redondinha e tão difícil para a época! Mas, vieram outras! Moleques dão sempre um jeito! Fica registrado, aqui neste texto, um perdão que o meu coração levou muitos anos para tornar verdadeiro, uma complicada e difícil partida de futebol, jogada por todos nós que somos aprendizes de uma arte maior que é SABER VIVER – e tentar perdoar sempre! (orientações do nosso TÉCNICO MAIOR). Mas, como somos humanos, certo dia minha mãe, que estava diretora do Jardim de Infância Ana Benedita, chegou para mim e disse: - Meu filho, hoje você foi vingado! E a sacrificada bolinha NUMBER ONE também! Aquele velho desgraçado, furador de bolas, foi de PIJAMA pegar o seu neto no Jardim de Infância, e quem estava na porta? Eu! E disse a ele com educação e firmeza: - Por favor, meu senhor, aqui não se entra de pijama! Essa é uma escola pública e não um dormitório. Ele resmungou, raspou o pé no chão, e teve que aguardar a entrega do neto do lado de fora. Dona Yvone - O AZ JUSTICEIRO!
Agora, aproveitando a deixa desta mágoa perdoada, quero me lembrar de um fato que também marcou muito a minha infância, e de outra maneira – feliz! Aos 7 anos entrei para o grupo de Lobinhos na sede do Tênis Clube, época em que estavam desmantelando a antiga e construindo a nova. Nesta época não era fácil conseguir mochilas, cantis e outros artefatos – todos necessários para que realizássemos as nossas caminhadas: - Sítio de Dona Cedália, Fazenda do Zé Machado, Sítio do Newton Luz e outros tantos lugares. Aí entra em cena o Tenente Célio (doente nos dias atuais, e por quem peço sempre ao Criador pelo bem estar dele, relembrando o grande gesto que ele teve para com um garoto eternamente grato). Ele conseguiu para mim, a pedido do meu pai, uma mochila, um cantil e um embornal – DO EXÉRCITO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ele talvez não tenha tido noção do quanto me fez feliz, que Deus olhe por ele sempre!
Pensem muito bem antes de cometerem qualquer coisa contra os pequeninos. Crianças são crianças, e não podemos esquecer que também fomos um dia, com todos os direitos a fazermos coisas erradas, peraltices da idade, e sermos orientados e perdoados.

Izio Enco



Alcione, não lembro o nome, Dunga, Catita, Wilson (da imobiliária), Marcos Peri, Fred Cabeção, Dona Maria Helena, Luiz César Mendonça, Farah, Luiz Luz, Marcos
Homero e Joel Ribeiro. Um tempo feliz, muito feliz!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


GUERRAS E DISPUTAS
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO (04/11/2002)


Existia uma rivalidade entre os garotos da nossa rua com os da Aroeira e Miramar. Marcávamos guerras e estas normalmente eram travadas no CAMPINHO DO SEU JUCA. Este campinho era formado por enormes terrenos que se ligavam e ia da Rua Alfredo Backer até Conde de Araruama, cortado por uma vala onde também fazíamos as nossas caçadas de rãs em dias de chuva. Este espaço ficava compreendido entre as casas do Seu Juca, Tide, Dona Maria, Dona Emilinha, Seu Paulo, Seu Zequito e Seu Toledo. E aí estava o nosso campo de batalhas, o da turma da Rua Alfredo Backer.
As armas eram: arco e flecha, estilingue com cocos de mamona ou bolinhas de barro cozidas ao sol, besta e pedras de mão. E, de uso destes armamentos, os confrontos eram travados sem grandes machucados, só vergões! Mais uma vez estava Deus presente! Certo dia, durante um desses confrontos, ouviu-se um tiro com fumaça de pólvora. Um dos garotos da outra turma havia usado um CATAFEIXO (pequeno revólver feito com cano metálico de guarda-chuva ou cobre, pólvora, espoleta e, o pior: o projétil!). Mas, por sorte e PROTEÇÃO, ninguém foi atingido. Aí, pensamos em fazer um canhão. Compramos a pólvora facilmente de um comerciante local, arranjamos o tubo metálico, montamos a estrutura, e partimos para a experiência. Com que se seguiu: - um pedaço de muro destruído, um dos nossos guerreiros chamuscado de pólvora, chegou-se a um acordo tribal de que era extremamente perigoso e podendo causar danos irreversíveis!
E, diante de tão perigosos artefatos bélicos, as guerras de ruas foram caindo no esquecimento, e o PAI mais uma vez suspirou aliviado!
Moleques são moleques enquanto houver gente sobre o planeta!

Izio Enco


A VIAGEM EM TREM DE MADEIRA PARA ITAPERUNA -RJ
UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO – 04/11/20
02

A viagem no trem de madeira para Itaperuna – Sim, essa era uma viagem e tanto! O meu avô Júlio vinha passear em Macaé e, na volta, eu ia junto para Itaperuna passar uns dias na casa dele. O retorno era em um trem de madeira, puxado por uma Maria Fumaça cuspideira de fuligem que, além de balançar muito, fazia um monte de paradas para baldeações e comilanças, e aí estava a grande festa da viagem! Em cada estação que parávamos nos eram apresentados um monte de petiscos como: peixe-frito, pastel, milho-cozido, pamonha, papa-de-milho, preá frita, laranja, vara de mexericas, caldo-de-cana, e mais um monte de coisas pedindo para serem mastigadas. Ah! Também eram vendidos muitos passarinhos como: canários, papa-capins, melros, tizis, bicos-de-lacre, avinhados e etc... E a viagem, em virtude de tantas paradas para alimentação, manutenção, interrupções na linha, abastecimento de água, fazia com que este percurso tivesse a duração de um dia inteiro. Isto sem considerar que, a distância que separava Macaé de Itaperuna naquela época, parecia muito maior que agora, velhos e bons tempos! E, para tornar essa grande aventura mais agradável, a nossa maior diversão era mesmo mastigar, mastigar e mastigar! E pra mim, mastigador nota dez, o final era sempre uma colicantíssima dor de barriga , daquelas que faz arrepiar até a alma, suar nos dentes e chorar pelos cabelos!!! Aí, entrava em cena o vaso sanitário do trem, com uma dura tampa de madeira de cor esquisita, vazado direto até aos trilhos, onde todo o produto final da minha exagerada gulodice caía diretamente na linha. E, a partir deste ponto, começava o meu inferno astral, o medo de vazar também por aquele buraco e cair, junto com o cocô, entre as pedras que sustentavam os trilhos. Mas, sempre fui valente, nunca deixei de comer por intimidação daquele nojento vazo. E lá ia eu com o meu avô, debruçado em uma janela ainda isenta de pedradas, a apreciar as coisas belas da viagem, o ziguezaguear de alguns rios que margeavam o caminho e o imenso verde que compunha a maior parte da paisagem.
E, depois de tanta aventura, chegávamos naquele trem sorridente e lerdo em uma cidade quentíssima que eu amava e ainda amo muito, pois, lá estavam os meus avós paternos e tias que, sem dúvida nenhuma, sabiam me agradar e muito! Ainda hoje consigo tirar de dentro das minhas lembranças aquele longo piuiiiii que tanto se repetia no percurso, produzido por aquela grande engenhoca de ferro que, cuspindo vapor pelas ventas, nunca deixava de chegar àquele destino tão ansiosamente esperado pelo meu coração de criança saudosa. Bons tempos!
A benção, meus avós!
Que saudade!

Izio Enco



UM TEMPO DE ÁGUAS LIMPAS
UM TRECHO DE MINHA VIDA – IZIO ENCO (04/11/2002)



Fazia parte de nossas diversões tomar banho de rio próximo ao Mercado Municipal ou no canal que ligava Macaé a Campos, em uma ponte perto de onde atualmente funciona o batalhão da Polícia Militar, na Barra de Macaé. Este segundo local também era conhecido como as comportas do campo de aviação, muito bom para pescarias de caniço (piabas, acarás, traíras, e outros peixes) ou, com puçás feitos de sacos de arroz para pegar camarões pitus. Neste tempo, a água do canal era incrivelmente clara, com uma areia branca no fundo e plantas aquáticas em suas margens, parecendo mais um GRANDE aquário.
A muralha do rio junto ao mercado de peixes também fazia parte do roteiro de nossos banhos, mas, ali a coisa era um pouco mais perigosa. Neste tempo, em virtude do rio ter muito mais água que agora, havia uma correnteza e o desafio era atravessá-lo, conseguindo chegar até o pontal. De vez em quando um dos moleques era carregado para dentro do mar. Aí, como não faltava no lugar, aparecia sempre um bom pescador para resgatá-lo. Outro desafio que também fazia parte da festa era saltar sobre a muralha, executar um canivete no ar, e cair certinho de cabeça naquela água ainda limpa e quase sempre morna. Eram tardes felizes onde luzes da alma se misturavam com a cor dourada do sol da tarde, e que gritaria festiva aquela molecada fazia! Nesta época, havia bem menos barcos no cais e, com isto, o nosso espaço para os banhos era também maior. Quando o mar se misturava com as águas da foz do rio, aparecia um tom esverdeado mais limpo e belo, e cardumes de sardinhas apareciam para serem pescados até com iscas feitas com papéis de cigarro, a parte brilhosa.
São lembranças de tardes inesquecíveis que nunca mais voltarão. A atual água pastosa e suja do canal, repleta de esgoto do PARQUE AEROPORTO e lixo, jamais voltará a ter o encanto e beleza de antigamente. Não acredito em nenhuma administração que consiga fazer este milagre! O rio Macaé, já quase sem água por falta de cuidados em geral, virou um grande depósito de lixo. Suas matas ciliares foram devastadas totalmente para serem substituídas por grandes pastos, onde teria sido tão fácil preservar alguns metros para proteção destas margens. Acabaram com o seu zigzaguear tão importante em termos ecológicos, onde pés de jamelões e ingás faziam a contenção de suas margens. Transformaram o seu curso em retilíneo - que crueldade! Que falta de percepção!
Atualmente, é um rio triste. Sem os grandes robalos de antigamente, sem os cardumes de sardinhas, com um cheiro ruim e, o pior, sem a festividade aquática daqueles moleques nas tardes quentes de verão. Só um milagre de Deus! E eu acho que ELE já está se cansando da ignorância e egoísmo dos homens, está deixando rolar! Olhe bem o que já estamos colhendo.
A vida é pura física! Esteja sempre pronto para receber de volta, e com mesma intensidade, tudo aquilo que você mandar! Talvez falte a muitos a noção exata do grande comprometimento que é administrar.

Izio Enco

CARTEIROS DA MINHA RUA
UM TRECHO DA MINHA VIDA - IZIO ENCO – ( 04/11/2002 )



Aos 13 anos comecei com as namoradinhas e, como Macaé era uma cidade turística naquela época, algumas delas eram de outros lugares. Normalmente eram namoricos de carnaval e férias e, quando esta moleza acabava, o caminho era o das cartas, e a expectativa de esperá-las chegarem pelo correio era muito grande. Aí entraram em cena duas pessoas que marcaram muito a minha vida nesta época, os carteiros FABIANO e ELMINHO. Entre 15:00 e 15:30, era a hora certinha em que o trinco do portão fazia barulho e eu, garoto vivendo as primeiras paixões, corria para conferir a chegada do carteiro. O Fabiano, por já ter percebido a minha ansiedade e expectativa, do portão mesmo ele já acenava com a cartinha na mão. A porta era rapidamente aberta como se um relâmpago houvesse passado por ali, e, com mãos ligeiras e coração a mil, segurava aquele envelope bordado de verde e amarelo. O Fabiano era um sacana, quantas vezes acenou com envelopes que não eram para a minha casa e, quando eu chegava perto, com um sorriso cínico no canto dos lábios dizia: - Olha que eu me enganei!!! Ele já está entregando cartas para São Pedro e deve ter levado junto o bom humor e simpatia de sempre. O Elminho continua vivo e freqüentando alguns lugares que eu também costumo ir. Sempre ao vê-lo lembro-me imediatamente daquela expectativa gostosa em escutar o trinco do portão abrir e alguém gritar – CARTEIRO!!!
O cheiro das cartas – cada uma delas tinha o seu próprio cheiro – e que saudade !!!!
Recebia, olhava, apalpava, cheirava, admirava e, só depois de todo esse ritual, abria. E bebia as frases, saboreava os entre vírgulas, lia várias vezes as palavras carinhosas, e o mais importante, com esse mesmo coração sensível que consegui manter vivo dentro do meu peito até hoje. Que privilégio !!!!!

Izio Enco
-Publicado em Maio de 2009 por José Milbs de Lacerda Gama, editor de www.jornalorebate.com em honra e homemagem ao Luiz Cláudio -Dunga - Bittencourt

13.5.09

Recebi do Iney Bastos um texto do Izio Enco que retrata as saudades de todos que viveram este mundo estudantil...

O GRUPO ESCOLAR MATIAS NETO

UM TRECHO DA MINHA VIDA – IZIO ENCO (04/11/2002)

O Grupo Escolar Matias Neto - Ontem, passando em frente ao Matias Neto, olhei por uma das frestas do portão e vi o local onde nos organizávamos em filas para depois irmos para as salas de aula. Imediatamente vieram lembranças de um tempo em que lá passei a estudar e brincar, ainda tão vivo em minha memória e separado do dia de hoje por apenas 44 anos. Olhei as escadas de pedra que dão acesso ao interior do colégio, a grade onde ficavam os professores na hora de cantar o hino apropriado ao dia, as belas janelas herdadas da colônia portuguesa, e me vi! Camisa branca de mangas curtas, com as iniciais do colégio gravadas no bolso e com um fino laço azul que fechava a parte de cima, calça curta, de cor preta ou azul, com sapatos também pretos, pasta de couro ou embornal, isto dependendo da situação financeira de cada um, para guardar os cadernos e uma cheirosa merendeira ou um modesto embrulhinho. Mas, as diferenciações ficavam restritas ao material, pois, o ensino era igualzinho para todos, e muito bom! E lá estávamos prontos. Todos enfileirados por turmas, em posição de sentido, separados pelo espaçamento de um braço esticado, silenciosos e respeitosos para a execução de uma solenidade que se repetia todos os dias antes de entrarmos nas salas de aula. Normalmente eram escolhidos dois alunos com bons currículos escolares, um menino e uma menina, que ali iriam cumprir orgulhosamente a tarefa de hastear a nossa bandeira ao som do hino. Até hoje consigo me lembrar do respeito que tínhamos por todos que formavam o corpo daquele colégio, fossem professores, inspetores de alunos, zeladores, diretoras ou qualquer uma outra pessoa que também fizesse parte daquela administração, ou que ali estivesse realizando algum trabalho. Não sei se era pelo império do medo ou da educação, mas, que havia bem menos agressividade do que nos dias de hoje, isto, sem dúvida, era um fato. Uma coisa interessante que também acontecia naquele tempo, era a visita de funcionários da MALÁRIA que iam ao colégio e distribuíam latinhas metálicas para que, no outro dia, as trouxéssemos com nossas fezes para exame de verminose. Era feito gratuitamente e, alguns meninos que se enrolavam com os pequenos depósitos, acabavam trazendo o seu produto de evacuação em latas maiores, e isto causava RISOS & RISOS. Havia também as vacinações. Normalmente era no braço e com seringas que causavam uma dor bem incômoda. Aí entravam em cena os mais medrosos ou, quem sabe, os mais espertos! Optavam pela agulhada na popa e, para isto, o local escolhido era atrás da porta, sem plagiar o nosso grande Chico Buarque. E tome mais risadas! E o que parecia sofrimento, acabava virando diversão! Outra coisa que sempre mexe muito com as minhas lembranças é o cheiro da sala de aula, uma enorme mistura de odores formada por merendas como: pão com um ovo frito, ovo cozido, pão com banana, pão com goiabada, banana, laranja, rapadura, pão com manteiga e açúcar, refrescos e uma caneca de leite, servida pelo colégio, e que vinha dos Estados Unidos da América com o nome de ALIANÇA PARA O PROGRESSO. Havia também o cheiro do material escolar, dos perfumes e de tantas outras coisas que também ficaram bem guardadinhas em minhas recordações. As pichações eram modestas, bem pequeninas e escritas a lápis nos cantos das paredes, e ai de quem fosse pego fazendo isto! E a nossa primeira professora do curso primário?!!! A dona Maria do Carmo! Uma mãezona! Ainda consigo me lembrar da doçura de sua voz e do carinho com que ela cuidava da nossa educação, mas, já está na parte de cima da vida, e torço para que esteja fazendo exatamente a mesma coisa que aqui fazia, ela era muito boa com os pequeninos! Outra grande lembrança que também guardo em meu coração e com muito carinho, é a de dona Elmira. Por várias vezes recebi morangos de presente, colhidos pelas suas mãos, em canteiros que existiam no colégio e eram cuidados por ela. Também era muito boa no trato com crianças, todos a adoravam! No Matias Neto havia um enorme espaço para atletismo, com campo de futebol e pistas em tamanhos oficiais. Era uma área de lazer e tanto! Utilizada para aulas de educação física e torneios que se realizavam entre os colégios todos os anos, e como isto era saudável e festivo! O colégio também era quase todo cercado por enormes eucaliptos que faziam um sombreado muito agradável, e ali a garotada divertia-se em dias de aulas, folgas e férias. Mas, com a chegada do progresso, precisou-se de mais espaço para edificações. E a grande área de esportes começou a ser recortada até que um dia nada mais restou, e ficaram só as lembranças! Naquele tempo, para entrar para o ginasial, era preciso fazer uma prova de admissão, era um pequeno vestibular que mexia muito com os nervos da gente e dos nossos pais. Mas, existiam professores que nos preparavam para essas provas e, o motivo de eu ter passado tão facilmente e com tão boas notas, devo a dona Irecê, dona Iraci, e as suas devidas competências. Os sons de suas vozes ainda ressoam vivos em minhas recordações, eram tão duronas quanto responsáveis pelo que faziam, e foram muitos que passaram por aquelas educadoras mãos. Quanto de carinho e saudade tenho por todos os meus professores, sem mágoa alguma, e com enorme admiração, respeito e gratidão por tudo que fizeram por mim e por tantos.

Izio enco - um aluno levado, que tirava boas notas, era querido, e sempre detestou parágrafos !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

29.4.09

Três Poemas do Pres. Mao em transcrição do Armando Rozário para O Rebate....

TRês Poemas do Presidente Mao e que tenho a felicidade de publicar. Armando Rozário, um dos mais conceituados Jornalista e Fotográfo, nasceu em Macau. É um dos mais assíduos colunista de O REBATE e meu amigo pessoal.

TRÊS POEMAS - Mao Tse Tung

I

ALTO é o céu, adejam nuvens,
Vejo patos selvagens buscando o Sul para além do horizonte.
Conto nos dedos --- 20.000 li de distância;
E dito para mim que não seremos herois se não atingirmos a Grande Muralha.
Agora, de pê, no pico mais elevado das Seis Montanhas,
O pavilhão ondulando ao vento ocidental,
Com esta longa corda nas mãos,
Pergunta-me quqndo será que amarraremos o monstro.


II

NO Exército Vermelho não havia ninguém que receasse as misérias da Longa Caminhada.
Olhávamos com desprêzo as milhares de picos, as dezenas de milhares de rios,
As Cinco Montanhas erguiam-se e tombavam como vagas que ondulam,
Os montes de Wuliang não passam de pequenos seixos verdes.
Quentes eram os precipícios abruptos quando o Dourado Rio de Areia corria pelo alto.
Frias eram as pontes de corrente de ferro que pendiam sôbre o Rio Tati.
Nas mil extensões nevadas da Montanha Min, felizes,
Vencido o último desfiladeiro, os Três Exércitos sorriem.


III

A paisagem do Norte está completamente
Envolvida por uma camada de mil li de gêlo
E dez mil li de turbilhões de neve.
Olhem de ambos os lados da Grande Muralha...
Agora só resta uma desolação imensa.
Nas calhas superiores e inferiores do Rio Amarelo
Não se pode mais ver correndo a água.
As montanhas são serpentes prateados que dançam,
As colinas, elefantes que brilham ao longo da planíce.
Anseio bater-me com os céus.

Na estação clara
A terra se mostra encantadora.
Môça de rosto queimado e vestes brancas,
Tal é o encanto dessas montanhas e dêsses rios.
Que incita inúmeras heróis a se baterem entre si pelo prazer de seguir em seu enlaço.

Os Imperadores Shi Huang e Wu Ti eram quase ignorantes,
Os Imperadores Tai Tsung e Tai Tsu não eram homens de sensibilidade,
Gêngis Cã sabia apenas retesar seu arco em direção das águias,
Tudo isso faz parte do passado --- agora sòmente há homens de coração.



O primeiro dêstes poemas foi escrito ao término da Grande Marcha, quando o Exército Vermelho perfez a ascensão da última das elevadas montanhas na estrada de Ien~. O "monstro" não se refere diretamente a Chiang Kai Chek ou aos japonêses: Mao Tse Tung explica a expressão dizendo fazer referência simplesmente "ao inimigo que habita entre nós". A forma do poema obedece aos moldes clássicos, sendo os versos escritos em cinco caracteres.

O segundo poema foi escrito pouco antes de sua chegada a Ienã e representa uma espécie de salmo em louvor da avançada dos exércitos vermelhos. A maioria dos nomes citados no poema refere-se a lugares onde foram travadas batalhas. Os "Três Exércitos" não dizem respeito às quatro armadas que participaram da Grande Marcha, mas trata-se de um têrmo técnico tão antigo quanto a Dinastia Chu, usado para descrever os exercitos dos impradores chineses. A expressão "Exercito Vermelho", no primeiro verso, é igualmente um têrmo arcaico, e seria de fácil compreensão nos tempos de Confúcio, quando tinha o significado de "a bela armada", sendo que a palavra "vermelho" na China e na Rússia tem uma acepção que evoca antes as idéias de alegria e beleza do que a de côr.

"A Neve", como é mais conhecido o terceiro poema, é uma espécie de relatório da situação da China, começando por uma evocação da paisagem chinesa, que se transforma em seguida numa bela e jovem camponesa, por quem os imperadores do passado e do presente sustentaram um guerra sem têrmo. O verso "Anseio bater-me com os céus" possui uma intraduzível majestade no idioma original, sem encerrar, contudo, nenhum orgulho da parte do poeta, que fala a proposito do avião, da paisagem e do povo, não de si próprio. No verso final, a flecha é disparada. Aí, a nota de grandeza autêntica se faz evidente e o nosso século reivindica em relação ao passado fica expresso claramente. Os críticos consideram "A Neve" 'um dos mais belos poemas da língua'.

Estes poemas foram traduzidos do chinês por Robert Payne. Não conseguindo obter essa tradução, elaboramos a nossa através da versão francesa de Janine Mitaud, feita sobre a inglêsa de Payne, mas que --- dizem --- foi mais feliz, - IVO BARROSO

Ref.: Revista SENHOR - Abril de 1959 - Rio de Janeiro Brasi, p 99.

TRANSCRIÇÃO DE ARMANDO ROZÁRIO - CABO FRIO, BRASIL - ABRIL DE 2009.

23.4.09

Nilo Fabiano, em carta, relembra com saudade, uma cidade que ainda tem memória...


Foi com muita alegria que recebi e publíco no "O REBATE" este canto maravilhoso da memória macaense vivida por um de seus mais belos e ulustres filhos. Nilo Fabiano Castro, filho do inesquecível Faustino Marciano de Castro e dona Maria cujas presenças ainda bailam nas memórias de muitos ao lembrar suas presenças nas janelas de nossa Rua Principal vendo e aplaudindo os desfiles dos Carnavais dos anos 40 e 50. Sempre ao lado de figuras saudosas da bucólica Macahe. Amélia Pinto Brasil, Magdá Pereira Garcia e outras tantas memórias que batem nas paredes e caem ao sublime vento, que vindo das ilhas nativas, neste início de Outono de 2009 fazem com que as teclas do PCU transformam em frases e textos.
Bem vindo, Nilo, abraços em Therezinha e Rominho. Macaé ainda existe e vocês faxem parte desta história. Bjs Jose Milbs...
Que fale mais alto e mais sublime a carta do Nilo Fabiano:


Prezado amigo José Milbs
Fiquei feliz em fazer contato com você. Esta Internet é fabulosa.
Jadir encaminhou-me uma mensagem sua, na qual existe uma referência a Mathias, primo do famoso Gilson Pé de Pato. São pessoas muito queridas. Coracy, irmão do Gilson e do Levy, foi um dos meus mais queridos amigos. Ausentei-me cedo de Macaé mas os amigos de infância permanecem inesquecíveis e você é um deles. Conheci todos os Mathias, filho da querida Da Cici e olhe que foram 11 homens.
Morei com o Heleno, figura muito distinta e locutor da Rádio Relógio, quando morávamos em Niterói e fui muito amigo do Aderbal Mathias Neto, que ostentava orgulhoso tanto o nome do escritor, seu parente, quanto o uniforme de cabo do Exercito Brasileiro.
Bons tempos, meu amigo. Tivemos a felicidade de viver numa cidade linda, limpa e extremamente ordeira - lembra-se da cadeia, situada próxima do mercado de peixe ? acho que não tinha portas e era cuidada pelo Cabo Vulcão, o mesmo que tentava por alguma ordem na molecada que assistia às sessões Colosso nas 3as feiras no saudoso Cine Taboada, saboreando as balas e os biscoitos de polvilhos fabricados pela Da Nieta. E o sorvete de creme com calda de ameixas, na Sorveteria Vem Cá ? Formidáveis, saborosos, inigualáveis e até melhores que qualquer marca moderna como Kibon, Mil Frutas e tantas outras. Bons tempos, aprender a nadar na Praia da Concha, porque a Praia da Imbitiba era considera muito perigosa. E roubar frutas. Havia melhor programa do que roubar frutas e correr dos cachorros? Não sei como classificar nossa infância. Maravilhosa é muito pouco...E as serenatas com violões e flautas, com alguns artistas amadores e outros nem tanto, até famosos como Benedito Lacerda e sua divina flauta, a nos acordar pela madrugada e nos fazendo satisfeitos vir às janelas para agradecer tão pura e sincera homenagem. E o Bebé ? aliás "Seu" Bebé. Famoso e respeitado alfaiate, com atelier na Rua Direita e também exímio pescador a sacar junto com os seus filhos a maior parte dos robalos que se aventuravam próximos do cais na Rua da Praia. Muitas vezes ajudei ao Adelino, caçula entre os filhos homens, figura gentil e simpática e que nos deixou muito cedo, a pegar piabinhas para isca , nos valões próximos à Estação dos Trens. Diziam e era voz corrente entre nós naquela época, que não existia festa ou qualquer outro acontecimento importante na cidade em que não existisse pelo menos um dos Bebés presente. Estavam em todas e eram extremamente queridos. A Nova Aurora e Tinho tentando botar ordem naquela esforçada banda para alegria de todos e a sua rival , a não menos querida Lyra dos Conspiradores, enchendo o ar de melodias nas noites de ensaio, ali pelas bandas da Praça da Igreja, nas imediações da Casa de Caridade, hospital e ambulatório que a todos atendia com os seus dedicados enfermeiros, o grande Aloizio, grande e alegre, sempre com uma piada na ponta da língua e muito bom humor e o gentilíssimo Juquinha. E a Praça da Luz ? De onde partia célere , uma equipe para tentar descobrir e corrigir a falta de luz, que acontecia com freqüência, produzida por um bom vento ou um raio que insistia em cair próximo das linhas de transmissão. A praça da Luz que juntava tudo e todos, brancos, pretos, mulatos, cafuzos e japoneses se houvessem. Onde aprendemos sem saber, a não ter preconceitos de raças e outra bobagens . Todos aqueles meninos correndo atrás da bola, numa alegria enorme e difícil de se ver hoje em dia. Foi ali que aprendi que naquelas peladas, bola alta tinha dono, pois Pedro, irmão do Tinho, jogava com muleta e sua muleta subia aos céus e nas bolas altas, não tinha para ninguém. Querida figura, personagem inesquecível da minha adorada infância : Pedro Muleta.
Cada ano que passa a nossa família, aquela família educada pelo Ginásio Macaense à frente do Cine Isabel, diminui um pouquinho e nós que convivemos agora com esta nova geração, nos tornamos figuras preciosas, não só pela formação que Macahé nos proporcionou como seres humanos, mas ainda como álbuns vivos, depositários de épocas, momentos e recordações que se foram. Bons tempos, meu amigo. Momentos e recordações que são como águas do Rio Macaé que passaram por baixo da ponte antiga e de ferro e que não voltam nunca mais. Que bom que ficaram as lembranças, que bom que existem muitos de nós ainda vivos, daquela maravilhosa Família Macahense, que bom que existe a Internet.
Se cuida. Você é muito precioso e a cada ano que passa, mais precioso é. Deus lhe guarde.
Um forte abraço
Nilo Fabiano.

13.4.09

ONDE HABITARÁ O MEU AMIGO GORDO DO BAR DA RADIO NACIONAL NA VELHA PRAÇA MAUÁ?

Ainda menino de 17 anos lá estava eu nas noites do Rio de Janeiro nos anos 50. A Praça Mauá era onde fluia as belezas do Sub Mundo do Rio de Janeiro. Lá estava eu entrando neste mundo, saído das ruas empoeiradas do interior do Rio.
Luzes de uma Ribalta alegre onde a malandragem era o toque mais fluente marcava a presença de velhos e jovens do Rio Antigo. Marinheiros de várias nacionalides se misturam com mulhores e proxenetas. Vozes diferenciadas de sotaques estranham se amalgamavam com meninas da noite que dobravsm a lingua para parecer que conhecia e falava inglês ou francês...
Motoristas de taxis, lotações cheias chegavam de toda a região do Rio de Janeiro. Fervilhava a minha saudosa Praça Mauá...
Tinha eu um amigo que era uma espécie de xerife Como ele também tinha vindo de familia do interior a gente se identificou e longas conversas marcaram os contatos em seu Restaurante. Era o Gordo que abria os espaços em vários setores das Noites Cariocas. Em cima de seu famoso Bar e Restaurante funcionava a Rádio Nacional. Todos os velhos artistas do Rádio e famosos apresentadores "se aançoavam" ao cumprimento que a todos os Gorde dispensava.
Quando o Por do Sol trazia os últimos olhares na Bucólica Niteroi que começava a ter suas luzea acessas, tinha início um novo circulo de pessoas na habitável Praça mauá. Saiam os executivos, comerciantes, jovens comerciárias da perifiria e davam lugar ao amantes da noite.
Era ai que reinava o Gordo da Praça Mauá. Seus olhos tinham sempre uma fixação num belo pensamento que deixava fluir quando em sua fala. Prostitutas, travestis, que eram chamados neste tempo de viados, satatonas que tinham o chamar de fanchonas, eram todos afagados pelo abraçar carinhoso deste homem que tinha um grande carisma. Como observador eu via que o tratar era igual com todos. Desde o abraça em Ary Barroso, o sorriso para com Nelson Gonçalves, Orlando Dias, ele também sabia ser agradável e alegre com os malandros e cafotões que vinham ao seu encontro. Me chamama de "Macaé" e sempre dizia que tinha um grande amigo de nome "Glostora" que morava na cidade da região de petroleo.
Mais tarde conheci o amigo dele. Era um homem de cabelos grsalhos que também tinha um boteco na região do Mercado. Glostora era do tempo de Tái, Mistral, Seu Mota, Miguel Felix, Djalma, Flavinho e outro Gordo, este de Macaé...
Glostora reinava no Mercado de Peixe, Sete em Porta e prostibulos de nome "Guadrado, Sambambaia, Continental e samburá, todos na Praia Campista.
Um irmão dele, que não me recordo o nome, pude conhecer nas noites na cidade de Campos. No Dadá, na Rua do Veira ele comandava as noitadas que eram alegres como no Rio e em Macaé.
O irmão de Glostora era sempre acompanhado de vários simbolos das noites de Campos dos Goitacazes, como Piquira, José Marcio, Pé de valsa, Batatinha e outros...
Interessante que as pequenas coisas, as pequenas amizades, tinham um potencial muito grande nas lembranças deste meu amigo Gordo da Rádio Nacional. Perdiamos horas tagarelando. Ele sobre sua familia e sua criação num Subúrbio do Rio de Janeiro e eu de minha infância na Rua do Meio em Macaé e em del castilhos no Rio.
Entre um Chopp Preto de Colarinho que só eram servidos no seu Restaurante e no Amarelinho da Lapa, eu ia me familiarizando com o "bast-Fond Carioca pelas maõs abençoadas do Velho Gordo, o Rei da Mauá...
Este Rio de Janeiro, creio, não existe mais. Das peripécias de Madame Satã no Rua do lavradio, das mulheras do Novo México e do Bola Preta ficarm as recordações que batem nas paredes memoriais deste cronista.
Os cartões dos Dancings Avenida e Brasil e o final das noites no Bolero e Ciroco da Avenida Atlântica...
Tempo bom de meu Rio das Antigss... José Milbs de Lacerda gama editor de O Rebate...


8.4.09

Uma lembrança com homenagem ao meu primo português Antonio Fino da Costa...

A região de Petróleo não tinha lá muitas coisas de novidades nos anos 60. Afora alguns velhos portugueses, conterrâneos de meus ascestrais, como o Velho Joaguin Sucena, Zacarias Ferreira de Moraes,Joaquim da silva morteira, poucos outros se ancoravam aqui. Até por que a cidade era mais chegada as pescas e ferrovias.
As construções mais belas de Macaé e de Cabo Frio foram desenhadas pelas mãos dos grandes arquitetos portuguêses que não tinham a formação acadêmics e eram orgulhosamente chamados de Construtores.
Casas e palácios recebiam placas, maioria feitas com esmero e carinho com a frase: JOAQUIM DA SILVA MURTEIRA, construtor licenciado e ou ZACARIAS FERREIRA DE MORAES, construtor licenciado...
Mais quero hoje falar de meu primo Antonio Fino da Costa que não vejo a muitod anos. Jovem portugues de Lisboa, com grandes histórias contadas e para contar, este belo exemplar de além-mares marcou muito as gerações de macaenses dos anos 60-70. Alegre, sempre cercado de um humor extraordinário ele conquistou a cidade e todos que tiveram o prazer de ter vivido com ele.
Viajou mundos e não tem voltado para rever os amigos. Foi com seu braço amigo que fui trabalhar no Rio de janeiro com 17 anos.
Não Rua do Acre, onde conheci muitos mundos novos, pude acompanhar o campanheiros de outros portugueses que se tronaram meus amigos.
Noites de Praça Mauá, Centro, Cenelância, Bar do Gordo da Maua, debaixo da prédio da Radio Nacional se tornaram o meu dia a dia. Sempre com a apresentação do Antonio Fino da Costa, uma espécie de Rei das Noites.
Conhecido por todos, desde a Beneditino até a Senhor dos Passos, este amigo era saudado por onda passava e me familiarizava com o Rio de Janeiro. Foi com eles, os portguêses da Rua do Acre, que aprendi o gosto do bom Azeite e do Bacalhau com batatas...
Vai ai minha lembrança...
Lisboa, velha cidade...
Cheia de encantos e beleza...
Sempre formosa a sorrir, a luzir, sempre airosa.../
No branco véu da saudade. Cobre seu rosto, linda princesa...
Olhai senhor, esta lisboa de outra eras. Dos 5 reis das esféras e das toiradas reais...
Das festas, das seculares procissões. Dos seculares pregões natinais, que já não volta mais..
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Jose Milbs de Lacerda gama editor de O rebate

6.4.09

Bicicleta Hermes, Raio de Cromo Alemão com Guidon de Cromo. Uma saudade...




Nos anos 50, ganhei de minha mãe Ecila uma reliquia que ela comprou de um casal de alemão que morava no Grajaú e teve que voltar para sua terra. Naquela época a Região de Petróleo era servida de transporte em caminhões feitos pela Transportadora Macaense onde trabalha um jovem de nome Queiróz.
A chegada desta bela bicicleta fez com que me sentisse feliz. Reluzente ao Sol de Imbetiba, onde as aguas eram esverdeadas e limpas, eu ia, pela manhã as aulas na Escola Ferroviaria 8-1 Senai, me tornaria Ajustador Torneiro.
As ruas que me levavam até as Oficinas de Imbetiba pedalava e recebia os ventos frescos das belas manhãs macaenses. Muitos outros meninos também iam em suas bicicletas mais nenhum deles tinha a Hermes Alemã, com farol ligado na roda trazeira e freio nas duas rodas.
Menino de 13 anos, saído e vivido nas ruas empoeiradas de uma cidade bucolicamente bela, este trofeu era algo que fazia brotar dentro de meu interior uma confirmação da existencia do "Meu". Minha bicicleta preechia o vazio de outros bens materiais que muitos de meus amigos e colegas tinham.
Não me importava de outros tinham pai com carros, fazendas, casas bonitas. Eu "tinha" a bicicleta e ela, tinha certeza, era a que mais brilhava nas ruas da cidade de Macaé que viria a ser, nos anos 2000 a Capital Brasileira do Petróleo...
As 11 horas, quando o "Buzu" das Oficinas de imbetiba, avisava que estava na hora de todos irem almoçar, eu me misturava com as centenas de ferroviários que iam para suas casas em centenas de outas biclicletas. Pedalando, pedslando, pedalando sentia os olhares atentos de muitos para os raios cromados e a cor negra brilante da "minha Hermes Alemã"...
Chegava em casa, na Rua do Meio e minha vó Nhasinha já estava espernaod com o simples almoço que vinha das marmitas da "Pensão de João Mendonça" da Praça Verissimo de Mello. Comia rapidinho e caminhava para o jardins de minha casa de número 180. Ia direto, com um pano já sujo de graxa, para esfregar nas rodas, guidon, quadro e selin.
De volta as aulas do Senai, com o apito do "Buzo" de 15 para as 12 oo, parava no Bar Mocsmbo local de pequeno descanso de muitos ferroviários. Bate papo daqui e dali, jamais aceitei trocas ou voltas.
Os anos foram passando. Aos 22 anos tive que morar em Cabo frio. Minhã avó tinha falecido e a casa ficou abandonada onde, apenas com minhas chegadas de finais de semsna, era habitada. Numa dessas ausências humanas, expropiaram a minha Bicicleta. De nada adiantou as buscas em toda a região de petróleo.
Fiquei muito triste por que nunca mais teria acesso a visão de seu belo. Era uma coisa que transcencia o "desejo de posse". Era a ausencia de algo muito meu do meu meu interior...
Hoje, 06 de abril de 2009, 21 dias antes do aniversário de minha mãe Ecila, sonhei com a minha Hermes importade de Raio Cromado. Foi um lindo sonho que algumas pessoas me davam esta jóia de minha infancia, como presente. Os mesmo formado angular de seus paralamas e o mesmo brilho dos anos 50. Até o Sol de Imbetiba esteve presente neste sonho...
josemilbs@jornalorebate.com
Jose milbs, editor de www.jornalorebate.com

26.3.09

Por que choras quando eu canto?

No quarto 10 do Hospital de nome Casa de Caridade de Macaé

A FÉ DE NHASINHA

Dr. Moacyr Santos e Frei Baltazar se olharam de soslaio. De um lado o materialismo dialético do competente, do caridoso médico. Do outro a crendice de um velho Frei, musculoso, acostumado as durezas do dia a dia. Ambos se uniram numa coisa que une todos os seres da criação: o amor.

Os olhos lacrimejastes de Nhasinha tocaram as profundas almas destes dois homens acostumados com a morte. Moacyr e Frei Baltazar saíram do quarto e deixaram Nhasinha com seu filho ao colo moribundo.

"Nada podemos fazer", sussurram ou ao outro no longo corredor da velha e secular Casa de Caridade de Macaé.

Até o olhar de conforto que Dona Durvalina e Seu Aluísio Andrade faziam, que ficariam registrado no diário do tempo e escrito hoje, previam a morte rondando e sentiam que o pior estava para acontecer. Médico e Frei saiem do quarto 10 da Casa de Caridade de Macaé, Na 1ª dobra do longo corredor, balançam as cabeças para o casal Aluisio/Durvalina.

O menino estava desenganado

José Milbs ainda respirava. Nhasinha com as lágrimas que caiam em sua face enrolou a criança num lençol hospitalar e foi para o corredor. Ainda pode ver ao final do belo e imponente corredor o Médico Moacyr Santos e o Frei balthazae dobrarem com destino ao portão principal do Hospital, onde tinha uma Capela.

Ecila entra no quarto e diz com os olhos cheios de lágrimas: "Nada mais se pode fazer, minha mãe. Já foi minstrada a Extema-unçao, Ele foi batizado, como a senhora pediu. Não tenho culpa. Eu quis e lhe dei o meu filho em lugar do seu, meu irmão que a senhora perdeu...

Infelizmente ele não deve sobreviver. Falou Ecila, amparada pelo casal Aluisio/Durvalina Andrade.

Nhasinha foi em direção ao corredor com o recém-nascido ao colo, começou um processo de respiração com a criança, que só os deuses podem explicar. Se ali aconteceu algum milagre ninguém pode afirmar.

Fato é que pela manha, aquele corpinho gelado já dava sinais de aquecimento.

Os olhinhos começaram a tremer dando sintonia à existência vital ao redor. Dr. Moacyr chegou ao espanto quando viu o menino no outro dia. Se não fosse materialista diria que aconteceu um milagre.

Temos de pensar agora na parte estética, dificilmente poderá viver uma normalidade pois esse problema da cabeça o deformará.

Mais uma vez ele estava sendo o veículo do canal divino. Ela não se deixou abater. Com a criança sempre ao colo, que só ia para sua mãe de leite Nilza Mello, irmã de Tote Mello e esposa de Tinoco Keller. Nos outros períodos, Nhasinha fazia massagens e torneava a cabeça do menino.

Como um artista que transforma em esculturas peças brutas, ela, pacientemente ia mexendo e moldando a massa de carne vermelha que feiava seu querido neto, na representação viva de seu filho e esposo. O menino representava a trilogia que só o amor pode explicar e entender como vetor do tempo e das verdades ocultas ao homem.

Ela sabia que o tempo era seu aliado. Sabia que o amor e o tempo se unem sempre na existência humana torneando suas raízes e belezas. Nhasinha tinha esse espírito de conceituação filosófica e sabia a extensão do belo e o verdadeiro sentido do divino. Tem pessoas que nascem com este dom natural e Nhasinha tinha este nascimento.

Enquanto Ecila , Nilza e outras senhoras serviam o leite materno Nhasinha ficava noites e dias inteiros modelando esta massa fria de carne vermelha no belo que ela queria para esta criança. que tinha vindo ao mundo num dia 13 de agosto de l939 leonino como ela, que era de 20 de agosto de l889.

Os dias iam passando. As noites de setembro davam lugar a uma primavera fresca que até hoje habita Macaé. a Praça Veríssimo de Mello continuava com as folhas dos oitis caindo, crianças pulavam nos arredores da Casa de Caridade de Macaé.

Já havia a casa de Clóves Mello, filho de Cezar Mello do jornal "O Século", e pai de Euzébio Luiz da Costa Mello. Já havia o casarão onde morava Seu Lafaiete Vieira, pai de Faetinho e Walter e tinha ainda as casas de seu Sátiro Lins e Clodowin Graça pai de nosso querido contemporâneo Zé de seu Clodovil.

Do lado esquerdo havia a imponente casa de Seu Gastão pai de Dona Mirsys, Regis e Rosana Belmont e avô de Tânia Schueler.

Havia também dona "Totinha", Dona Maria Drumond. Como toda cidade, a Praça, a Igreja, pessoas e o mundo fora do Hospital da Casa de Caridade de Macaé, no norte do Estado do Rio de Janeiro. Vultos de gente, pessoas e locais habitavam a cabeça de Nhasinha ao olhar e pensar da janela do quarto 10.
Extraido do Livro On-line Saga de Nhasinha em www.jornalorebate.com e ou no livro
http://www.jornalorebate.com/nhasinha/14.htm

21.3.09

Otavianno Canella um homem além de seu tempo que pensou Macaé 100 anos à frente...





Foi nesta época de uma alegre e pura maldade que aportou em MACAÉ, vindo dos Campos dos Goytacazes, um vulto alto, esguio e bem falante. Trazia uma esposa de pele clara e formação educada, que foi tomando conta da comunidade pelos dotes de mulher, diferente no trato e no vestir. Era a esposa de seu Otavianno , com dois enes como ele gostava de dizer, Canella.
Canella foi se adaptando as maneiras macaenses e, como bom índio Goitacá, foi montando sua tenta e abrindo seu espaço.

Dono de uma grande verbosidade e de uma cabeça a frente de seu tempo ele visualizava a cidade com 50 anos a frente e foi cimentando suas idéias e adquirindo imóveis onde, as pessoas davam ou vendiam "a preço de bananas, como se diz nas rodas lindas das noites enluaradas dos sertoes brasileiros.
Canella ocupou toda orla da Praia Campista onde é hoje o trevo da Petrobrás e foi loteando por sua conta e risco onde hoje fica os altos da LAGOA DE IMBOASSICA. Sempre na sua Brasília amarela que parecia projetar os futuros mamonas .
Vinha e ia sempre de sua casa para o Bar e restaurante Belas Artes trocar idéias e fazer negócios. Foi lá que eu conheci este malandro nato que muito me ensinou nas artimanhas da vida. Eu com pouco mais de 40 anos e ele beirando os 98 anos.
Sua mesa estava sempre cheia de gente. Mangueira, o Velho Maia, o irmão gordo de Mangueira, Zé Clímaco, Carlos Augusto Garcia, José Lyra Madeira, Ruy Figueiredo Borges, José de Mattos, Leandro Soares, Aloísio da Vassoura, Gerson Miranda, Juventino Pacheco, Faustino Marciano de Castro, Filhinho Monteiro, Carlos Maia, Manoel Maia, Alvinho Paixão, Antão Freitas, Alcebíades Azevedo, Ruy Moutinho de Almeida, Paulo Rodrigues Barreto, Roberto Moacyr, e outros que me fogem a memória.
Canella ia transferindo para todos suas experiências campistas e conquistando os espaços na cidade e formulando idéias de vendas e compras, já que a maioria das pessoas estava mesmo acomodada em sair de casa, abrir o comércio, fechar as l7 horas, tomar um banho e ir para a rua trocar idéias ou falar da vida alheia em longas fofocas interioranas que eram um dos motivos maiores para que as longas conversas tivessem sentido.
Gargalhadas para lá, olhares de soslaio para ver se não vinham parentes das pessoas fofocadas e assim a vida de Macaé caminhava nos passos lentos nas tardes noites nativas. Igual a todas as noites em qualquer cidade de interior do Brasil.
O "cerzimento" do Café por Toninho, com sua tradicional educação e paciência, era apenas sentida quando trazia para a roda mais cadeiras com a chegada de Márcio Paes, Waldyr Siqueira e alguns galistas que cumprimentavam e iam direto para o reservado, para uma refeição maior.
No caixa, o português Dinis e sua meiga esposa dona Maria, já sabiam que quando a mesa ia ficando com poucas pessoas já se avizinhava um "beiço" (nome ou termo usado nas cidades da regiao do RJ que pode ser também Pindura) na despesa e, catucando com o olhar de além mar para "Toninho", dizia que era chegada a hora de fechar a roda, sob pena do pindura ser a melhor opção.
As vezes a animaçao das noites era incentivada por "Gabarito" que, muito doido, entrava porta a dentro e o bar se fechava mais cedo. Esta figura alegre, era um sisudo funcionário do DNOS, que, com algumas pingas na cachola, incorporava o "gabarito" dançando com pratos na cabeça, bulinando mesas, dando tapas nas cabeças das pessoas, enfim, coisa que todo bebum, com l m 50 de altura e pesando uns 48k, nao recebia outra opçao das pessoas senao um alegre até logo...
Dinis deixou a direção do Belas Artes e veio dona Maria e seu "Paco" que trouxeram com eles os seus filhos que se criaram junto com todos nós. Roberto, o mais velho se casou com a filha de Bráulio e Ceni e depois foi para Europa.
Dona Maria e seu Paco foram os mais pacientes de todos os proprietários deste famoso bar. Acho que só comparado a Dinys e Dona Maria.
Vez ou outra entrava no BELAS ARTES vindo do jogo de Carteado da Rua da Praia, Pantaleão Teixeira, "Djalma Maluco", Mascarenhas para comprarem cigarros e levar café nas térmicas para as rodadas de Campista, Cunca e 21, jogos que viravam a noite.
Alguns visitantes engraxavam sapatos com "Tiziu" ou com "Sapato Branco Jogou Poeira no Vento". Este era o apelido de Aminta que sempre trocava suas frases mais era entendido. Ele queria dizer que o vento tinha jogado poeira no sapato branco. "Aminta" fazia seu ponto de engraxate na loteria de seu Martins, outro campista que importamos.
Quando chegavam de viagens desciam dos ônibus para um cafezinho ou um simples boa noite. O "Belas Artes" era o lugar de destaque. Na estação os carregadores de malas requisitados eram "Nilo Pavão" ou "Coruja", o "Bença Mamãe"... "Coruja" tinha este apelido de Bença porque quando de um baile na Barra apagou a luz e ele agarrou a primeira mulher que estava na frente. A luz acendeu e advinham o porque do apelido?
Canella ia observando toda a movimentação e forjava suas idéias onde o primordial era adquirir áreas onde iria povoar uma Macaé que ele sabia ser de um futuro muito bom para seus objetivos financeiros.
Tinha suas preferências em amizades e eu, "Parodi", "Filhinho Monteiro," Omir Sá Rocha e Carlos Maia eram suas melhores escolhas. Criou um menino negro que era seu orgulho e alegrias. Vendeu parte do seu ultimo imóvel em frente a Lagoa mais separou um lote para "Sebastiazinho" que ainda lá reside.
Falava de suas andanças nas periferias de Campos e de seu irmão, Silvino Canella que se formou em medicina na Suíça. Já com seus 98 anos ele quis casar e o fez com dona Dinorah que infelizmente o colocou no Asilo onde triste e sozinho ele faleceu.
Um dia eu fui com Maia visitá-lo e não era mais o "Guerreiro Goitacá". Deitado numa cama , num quarto coletivo ele pedia para que lhe tirasse dali.
Sua mente ainda tinha a juventude que queria voar pelo mundo e criar suas próprias azas. Porém, a fragilidade do corpo não obedecia a jovem alma, e se quedava no canto. Omir Rocha, outro que comigo ia visitá-lo, tentou contato com um seu parente em Campos de nome Ari Canela, que não deu atenção ao fato. Este seu primo parecia ser um índio já escovado pelos homens brancos Era mesmo o fim que se avizinhava para o velho Canella.
Uma Irmã de Caridade , que nos recebeu quando de sua morte, perguntada de que teria morrido olhou para dentro de si mesma e balbuciou como que num final de prece.
Ele morreu de tristeza e solidão. Seu sepultamento tinha apenas eu, Carlos Maia, "Parodi" e Omir, precisamos de mais um para por seu caixão o que foi feito por um coveiro de plantão. Uma flor colhida no próprio cemitério foi colocada em sinal de beleza na despedida deste mestre, filósofo, empresário, grande boêmio, campista e excelente amigo.
Tem gente que nasce com determinadas estrelas. Tipo assim uma figura carimbada pela criação. Nunca deixam dinheiro nem heranças. Me fazia lembrar o velho GANDHI e sua frase belíssima:
"Cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de inanição".
Canella era uma destas figurinhas que tivemos em nosso álbum. Quando ele morreu, as vésperas da primavera eu, ainda tendo acesso a imprensa, fiz uma crônica que terminava dizendo que ele ia com sua essência estrumar a terra da primavera que ele não ia ver.
Uma de suas mais importantes observações de vida foi me revelado. Ele estava já no seu final e me chamou num canto e falou. Meu amigo, acho que estou terminando meu filme. Perguntei rindo, que filme Canella? e ele , sério,. com seu olhar penetrante de cacique Goitacá, sentencia, acho que está acabando meu filme na cabeça, não sonho mais como antes eu sonhava, e acordo muito na noite, e as cores dos meus sonhos não estão mais nítidas, e, olhando me, perguntou como se tivesse já afirmativa resposta, será que temos dentro de nós um filme igual no cinema?
Era mesmo o fim de seu filme, pensei. Ri e desviei a conversa pedindo um chope. Canella sempre dizia que sua avó tinha sido pega a laço nos sertões de São João da Barra e que não se adaptando a vida civilizada (???) suicidou-se.
Era mesmo um índio Goitacá o meu bom e velho amigo Canella. (José Milbs, editor de O Rebate em www.jornalorebate.com)