Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

7.7.09

"Meu filho dê um pulinho na vendinha de Seu Bilú e compre fumo 5 pontas"...



Fiapos de Memória. Cláudio, o autor, Zelita, Seu Bilú, Seu Celino e o Fumo de Rolo...



Vovó Adelayde Bastos da Silva tinha 100 anos nos anos de 1940 e sempre chamava os bisnetos ou alguma criança para uma missao qualquer. Crianças que sempre estavam em seu redor ouvindo histórias, vendo cantigas serem misturadas ao vento ou simplesmente mirar seus olhos esverdeados e suaves.
As pessoas que chegam aos 100 anos são engraçadas. Se dizem cansadas da vida mais não de cansam de fazer louvores a existência em cantigas que falam no belo da vivência.
Vovó Adelayde tenha uma pele bonita, creia de rugas nas mãos e rosto. Falava com harmonia e estava sempre pronta para papear e fazer quitutes que aprendeu com seus pais no Sertão de Carapébus no inicio dos anos de 1800. Era filha única de uma india Urutú com um branco. Ecila, sua neta e minha mãe, dizia que era um homem nascido de mãe francesa que tinha sido o pai dela. Certo era que tinha a pele muito bonita e quase fechando para a negritude. Casada com meu bisavô Emilio Tavares da Silva, um velho cigano e de estatura alta, viveram a felicidade de uma convivência de mais de 60 anos.
Quando ela chamava algum de nós era para ir a Vendinha mais perto da casa para fazer alguma coisa. A maioria das vêzes todos corriam a um só tempo. Todos queriam fazer o atendimento dela por que era uma maneira de ir até a Rua e sentir-se premiado por atender algum de seus desejos.
A cidade era tranquila e bocólica. Não havia carros. Apenas carroças puxadas a cavalos ou burros ou algumas bicicletas. Todos se conheciam. Os moradores da cidade eram nativos de Macaé, Conceição de Macabú, Carapebus, Quissamã, Cabo Frio, Rio Dourado, Sana, Cachoeira de Macaé, Glicério ou de Casimiro de Abreu. As prais eram cercadas de matos e, as vielas que levavam as pessoas até eles, tinham grande buracos de Caranguejos e Goiamuns que eram um grande quantidade e tamanhos. Passarinhos, frondosas àrvores e velhas cercas de bambú eram as visões alegres de quem caminhava neste mundo maravilhos de uma cidade Pura e de Sol ameno...
A Vendinha que era mais perto de nossa casa na Rua do Meio era de um senhor risonho e muito atencioso que atendia pelo nome de seu Bilú Miranda. Ficava numa esquina onde tinha uma padaria de um belissimo senhor de nome "Seu Celino". Ele, seu Celino, tinho um montão de filhos e filhas e o "Seu Bilú" também. A gente aproveitava para comprar, numa só viagem, alguns pães mineiros e de milho que era a especialidade da Padaria,
Lá em Seu Bilú Miranda tinha tembém Rapadura em pedaços, Pirulitos de Mel que vinham enrplados num papel fininho em forma de cone e Bolebas...
A corrida e distância para atendermos o pedido de minha avó Adelayde sempre era pela manhã. Um Sol deixava fluir, por entre galhos de belas árvores, uma cor quase igual a dos Arco-Irys das tardes macaenses. Era uma cor misturada de Azul do Céu,Amarelo de folhas secas que ainda não tinham caido e verde de galhos que, ao balanço do vento vindo do mar, fazia existir este colorido que só crianças e velhos podem ver na natureza...
Como era muito jovem eu sempre ia em companhia de um amiguinho mais velho 3 anos. Cláudio me pegava pela mão e, de calças curtas e cabelos ao vento a gente ia em direção a missão que nossa avó tinha nos determinado fazer.
A distância de nossa casa até s Vendinha devia ser de uns 700 metros. Embora tivessemos que dobrar na Rua Júlio Olivier, passar em frente a casa de Custódio e Gilda, Lucas e Zilda, Tinoco e Nilza, era tudo muito rápido por que não tinha muitas casas. Eram casas encostadas uma nas outras sem trancas e sem medos. Cortávamos caminho de terreno em terreno, pulando cercas e espantando Rolinhas...
Cláudio era filho de dona Zelita Rocha de Azevedo e do Seu Alvaro Bruno de Azevedo e tinha que ir, lá na "Travessa" onde morava, pedir permissão dela para me levar na Vendinha e atender a vovó Adelayde...
Cláudio aproveitava a ida para apanhar alguns botões e algumas bolebas no caso de a gente achar alguem jogando triangulo ou alguns meninos jogando botões em varandas no caminho de nossa ida. Caminhavamos eu e Cláudio, com nossas setas ou atiradeiras penduradas no pescoço sem imaginar que seriamos eu editor de O REBATE e ele um dos mais dignos e corretos politicos do Estado do Rio no Século XX...

Havia, nos pequenos trechos entre as casas muitas gaiolas com Coleiros, alguns São Paulo, Larangeiras, Papa Capin de Ponto e poucos Canários que cantarolavam saudando o amanhacer que caminhava para o entardecer. O vento ainda teimava em chegar aos nossos rosos infantis e meio suados em andragens rapidinhas e afoita.
Embora nossa missão era comprar Fumo 5 Pontas ou o similar Fumo Coral havia a necessida de irmos rápidos por que o troco, em Vintém, a gente usaria para comprar papel para confecção de Pipas. O Vento era nosso aliado e demonstrava que iria ficar na cidade por muito tempo. As Folhas de Papel de Seda e a Linha seriam compradas na outra esquina com o "Seu pepeu" que, numa loja de nome " A Garota" vendia todo o tipo de bugingangas que as crianças adoravam e as mães também.
Vovó Adelayde usava o Fumo 5 Pontas para mastigar. VovÔ já era ligado a Fumo de Rolo que ele comprava de um homem que vinha de Caraébús à cavalo.Ambos faziam as suas linda cabeças brancas neste sumido fumo...
As curiosidades infantis ficavam por conta do mastigamento do Fumo que esta linda mulher de 100 anos fazia e cuspia nos seus paninhos que eram por ela mesma lavados e guardados com muito carinho.
Numa noite, indo no quintal levar os seus Sagrados Panos de Fumo ela caiu. Tombo, nos anos 40 de 1800, com a medicina ainda engatinhando, não havia como rever o quadro. Uma morte feliz, uma passagem como disseram os seus amigos e visinhos...
José Milbs de Lacerda Gama editor de www.jornalorebate.com

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