Boas vindas

Que todos possam, como estou fazendo, espalharem pingos e respingos de suas memórias.
Passando para as novas gerações o belo que a gente viveu.
(José Milbs, editor)

21.8.07

BOCA DE BAGRE, JOÃO BOCA PRETA E VULTOS DAS MINHAS ANDANÇAS...

TEXTO DO LIVRO 'SAGA DE NHASINHA'

BOCA DE BAGRE - Nova Aurora danificada foto de Armando Rozário

... Na saída podemos ver gente nova que habita esta região histórica de Macaé. Vimos, num olhar de soslaio, "João boca Preta" já lutando com doença que lhe curva o corpo e lhe purifica a alma. João faz parte das histórias vivas desta cidade tão fraca em lembranças.

Sua presença nas noites, sinucas, carteados e nos prostíbulos oficiais e oficiosos era sempre marcante. João Boca Preta foi para o Rio de Janeiro e voltou já cansado.

Quando já tinha escrito estas linhas soube que no inicio deste milênio "João Boca Preta" tinha morrido. Estava mesmo cansado da vida e seu vulto curvado pelo peso de uma doença já não tinha o afetivo cumprimento que tanto o caracterizou em nossas ruas.

Não falava mais em Cláudio Moacyr que era seu líder e amigo e que me dizia sempre "ter sido recebido" num Centro Espírita em Nova Iguaçu. João achava que Cláudio tinha reencarnado e estava enviando mensagens.

Morreu acreditando e, se verdade for, deve estar com ele em algum lugar falando fatos de uma Macaé que ficou para trás.

As poucas vezes que João Boca Preta foi visto por mim na rua Direita, ele vinha magro, cabisbaixo, tentando forçar uma situação salutar que só a ele enganava. Foi juntar-se a Motinha, Alvinho, Wilde, Ronald de Souza ou, quem sabe, ouvir no silencio perguntativo de sua presença entre nós, os sorrisos de Tinoco ou o olhar puro e malicioso de Zé Clímaco. João deixa em Macaé a saudade que deixou Dunga, Cláudio Upiano, Zé Caxias e José Calilzinho do fluminense.

Fazia parte de uma melancólica e Pura Cidade que nunca virá a ser igual como nunca será igual as doces presenças de gente como ele.

Quem sabe ira rir das brincadeiras de Jonas Macacada, irá receber os puxões de orelhas de dona Fifi, o olhar severo de Elias ou, talvez pedir votos ainda, para seu velho amigo Cláudio Moacyr?...

E as saudades de Dona Elisa tia de Milcélio? E as centenas de filhos que esta Santa Senhora espalhou em nossa cidade no inicio e meados do Século? Dona Elisa estava para o lado de lá da cidade como Dona Durvalina estava para o lado de cá. Dividindo Macaé num limite geográfico do Centro para a Aroeira. Dona Elisa fazia suas curas. Sob suas divinas mãos nasciam os filhos e afilhados. Quem não bebeu da sua garrafada para engravidar? Perguntou minha mãe Ecila quando seu nome foi citado no Casarão da Boa Vista onde ela nasceu e mora os descendentes de Jayme Franco?

Do Centro da cidade para o lado de cá até os Cajueiros e Praia Campista era o reinado da mãe de Zequinha, a mãe Durvalina. As pessoas precisavam procurar no tempo e no espaço estas divindades humanas e suas belezas. Só assim poderão entender o significado de Macaé ter tanta espiritualidade rondando o nosso ar.

Minha mãe Ecila era, na Rua da Boa Vista o que eu era na Rua do Meio. Juntos vimos os descendentes de Dunga de igual história e Álvaro, de seculares porres noturnos, quando a cidade ainda era escura e seus habitantes dormiam com os passarinhos. A gente identificava as pessoas e se conheciam pelo balancear de corpos e falas altas. Ao Sair do Casarão Ecila perguntou de Cila e Noca.

Num carro velho, ainda tocado a manivela a gente olha e reconhece Lalá irmão de Boca de Bagre e Zé Puleiro que, ainda mantém a pureza macaense vindo da beleza pura de sua face desdentada mais que ainda conserva a beleza que emana dos corações silvestres.

Boca de Bagre freqüentava as matinês do Santa Isabel e Taboada sempre carregando gibis para trocas.

Quando ele queria "empurrar" um gibi em troca por algum que ele não tinha lido era comum dizer . olhando dentro dos olhos do possível cliente: tenho aqui um do Fantasma e dois de Rock Lane. E arrematava, num 171 divino: E olhe que eles trabslham bem (se referendo ao Fantasma e ao RockLane)... E, continuava: "O de Buck Jones é novinho e olhe que ele trabalha beme atira melhor anda... Assim Lalá ia trocando seus gibis. Às vezes, conosco, da Rua do Meio, às vezes, com Chico Gibi, filho de Heitor Paes. Levava "espiga"? Não sei. Sei que a ele trocava cinco velhos que a gente nao tinha lido, por um que a gente já tinha lido. Dai, acho eu, o empate neste comércio puro.

Ao olhar, por entre as gretas da recordação que todos temos dos bons tempos vividos, não pude deixar de ver a figura alegre de "Boca de Cumbaca" e suas gaiolas de canários da terra, sentir o detestável odor que vinha do levantar dos braços de Cata-Quaibo, Calombo e Pisa Mansinho quando jogávamos as peladas nos Cajueiros, no Areal da Rua da Poça ou no Campinho da Cocheira no final da Rua Dr. Bueno.

Sarta-N'agua, Mistral e Feito. Uma cidade onde, como disse numa de minhas crônicas e que António Ferreira da Silva, o Parodi, sempre se refere como uma realidade existente. Realcei, que havia "uma espécie de igualdade onde o afetivo determinava um socialismo que nem sabíamos existir e ter suas origens na ternura do afeto".

Era mesmo uma cidade de essências igualitárias e pura esta Macaé tão bem definida por Paulinho Mendes Campos como Cidade Pura nos anos de 1980.

Ainda no trecho da Rua da Boa Vista minha mãe viu e comentou a presença dócil de Jair Lacerda e Nila simbolismo de um amor eterno e feliz.

Foi assim, caminhando no tempo e no real que se recordava deste lugar que para ela tinha significado único.

Lembrou de João Punhal, sua história nos quartéis e de Sergipe uma figura meiga que habitou Macaé quando poucos se arriscavam em deixar o Norte do Brasil para vir para cá. Lembrou a mãe de Marialva Rodrigues, Lalá e Lilinha, perguntou por Madai, esposa de seu Barbosa outro nordestino que fez história em nossas infâncias. Não esquecia de Patureba, Tuiu e de dona Artemia que morava na esquina da rua Direita e que era mãe de Pilar, Tonito, Cezário, Anita e Hermínia.

As histórias de Filoca, pai de Amilar. As doces mentiras de João Barbeiro e Paulo Camarão ainda estão vivas nas recordações de quantos tiveram o sagrado privilégio de acreditar nelas e viajar em suas narrativas. Esta cidade ainda existe em cada um de seus descendentes. Basta que se catuque em suas paredes...

Sobre as memórias da Praça Verissimo de Mello, reviu o local onde o velho Pé de Tamarindo tinha sido arrancado violentamente pelo progresso e, sentiu arrepio ao ver a construção de mictório em frente ao velho coreto onde se davam os grandes comícios e retretas na Velha Macaé dos anos de 1930...

Vendo a "Nova Aurora" perguntou por "Tinho" e o maestro Aquiles .que morou em nossa casa na Rua do Meio. Aquiles foi um dos primeiros pilares das nossas tradicionais bandas. Se espantou com a construção na metade do terreno da Nova Aurora e perguntou pelos leões que ornamentavam a casa ao lado onde morava Luiz Fernando do Banerj e sua família.

E ""Sila tia de Jodyr e Iza? De uma "Lyra" que ainda pode ser ouvido seus acordes no paraíso onde deve habitar esta meiga senhora que viveu no Século de Puro de nossa Macaé de memória fraca e filhos fortes.

Na "Lyra," teceu falação sobre seu Sucena pai de uma sua afilhada Gerson. Recordou as tardes noites onde o desfile desta entidade se dava nas ruas periféricas. Naquele tempo as pessoas que faziam aniversário recebiam a presença da "Lyra dos Conspiradores" que desfilava nas ruas do aniversariante e se concentrava nos quintais até que a madrugada vinha. Era comum ver isso no aniversário de "Pequenino", Sucena, Lacerda e "Sto. Gavião".

Nestas noites, sob o fardamento de lindos ternos e camisas engomadas se podiam ver os vultos de homens famosos da comunidade macaense que passavam, cumprimentavam e eram saudados por quem estava sentado nas "Cadeiras das Calçadas".

Foi assim, de memória em memória, que a Rua da Boa Vista foi sendo desfilada em sua história de gente que fazia história. "Papa-lambida", seu José da Cunha Barreto, Luiz Pinheiro e sua filharada foram abrindo espaços nos pensamentos e suas presenças tiveram vidas e fatos havidos.

E sobre Ubirajara Barreto e "Talita"ela ficou um longo tempo recordando a infância na casa de seu "Lulu" Pinto com Alice e suas irmães, Gerson e Ruy.

Por detrás da sede da "Sociedade Musical Nova Aurora" tinha uma Rua que hoje não tem mais. Um correr de casas antigas. Havia uma que morava dona Nazareth que era filha de dona 'Cota' uma linda senhora que freqüentava a Igreja Católica da Praça no tempo em que o Monsenhor Jason era Padre. Sempre com seu tradicional chalé negro, estas senhoras eram a presença viva da beleza macaense no meado do século.

Uma menina era vista sempre em companhia de Dona Nazareth. Pude rever anos depois esta jovem no PT que fundei em final de década de 70. Marly tem duas lindas filhas que sempre a acompanham em seu trabalho na educação da cidade. Marly recorda de Luiz Carneiro que, vindo de Quissamã, deu os primeiros passos na história do esporte macaense.

A "Nova Aurora", embora descaracterizada em sua fachada por mãos destruidoras e de intenções comerciais, fica ao lado de uma outra casa que ostentava dois lindos leões na entrada que eram a alegria de toda a comunidade quando de suas idas para os passeios na Rua Principal. Era vizinho da casa onde morava Luiz Fernando e sua família.

Dizem que fizeram as casas na frente e conservam os leões. É uma pena que o "enjaulamento" se tenha consumado nesta preciosa obra de cimento e arte... (Texto da Saga de Nhasinha, fala de Ecila quando de sua última vinda à Macaé)...

15.8.07

ELSA SOARES ROCHA, MÃE DO NOSSO OSMARZINHO DEIXA SAUDADES...

ELSA SOARES ROCHA, MINHA CONTEMPORANEA DAS RUAS EMPOEIRADAS DOS CAJUEIROS E IMBETIBA, FALECE NO AEROPORTO.


Quem nasceu e morou nos Cajueiros, nos anos 60 conheceu Dona Elsa Soares da Rocha. Casado com o ferroviário Osmar Rocha, ela sabia todas as histórias que britavam de nossas ruas e vielas no tempo em que as noticias eram dadas de boca em boca. Macaé, como toda cidadezinha de interior, era uma manancial de alegres conversas em cadeiras estendidas nas calçadas e pessoas sentadas em bancos e pedras. Eram assim que se formavam a cultura, milenarmente passada de pai para filho antes da chegada do destruidor de mentes que é a TV mal administrada pelos serviçais do USA no Brasil...


Elsa era uma destas belas mulheres de nossa histórica Macaé. Criando filhos e esperando o velho companheiro Osmar chegar de suas andanças pelas noites macaenses. Osmar era meu amigo de caminhadas nas esquinas esfumaçadas e mal iluminadas de Macaé. Éramos o que as pessoas chamavam de “Boêmios da Velha Guarda”. Osmar tinha a mais linda voz da região. Cantava igual ao meu amigo Nelson Gonçalves e, juntos vimos os dois cantarem e se admirarem numa inesquecível noite na Fazenda do Carlos de Freitas Quintela.

Nelson, sentado em minha mesa, com sua esposa e seu filho Nelsinho, ficou encantado como Osmar Rocha podia cantar com tanta sonoridade suas canções. Nesta noite o “Meu Descanso” se dobrou aos dois grandes seresteiros. Era deste Osmar, boêmio, alegre, risonho, menino das ruas e bom ferroviário que os olhares de Elsa fixaram um amor que a acompanhou na juventude e a animava na criação da filharada.

Aos 68 anos, no vigor de uma entrada alegre na 3ª idade, Macaé perde a presença alegre de Elsa Rocha. Atualmente residindo com um de seus filhos no Parque Aeroporto, a notícia de sua morte ressoou com tristeza em toda Velha Macaé, principalmente nos Cajueiros onde ela fincou alegres amizades e firmes heranças de bondade...

Aos seus filhos os sentimentos de toda a equipe de O REBATE. Em especial ao meu amigo particular Osmar Rocha Filho, uma das mais simpáticas figuras do Judiciário do Estado do Rio de Janeiro. Mazinho presta serviços no Forun de Macaé que, jamais deveria deixar de ser Forun Abílio de Souza. A todos ele transmite o carisma feliz que herdou de Osmar e Elza.

E a vida continua...

José Milbs de Lacerda Gama editor de O Rebate, 75 anos de Histórias na Região de Petróleo do RJ...

12.8.07

MÉDICO MACAENSE MORRE NO RIO DE JANEIRO

JOVEM MÉDICO MORRE NO RIO E É SUPULTADO EM QUISSAMA

Carlos Magalhães Pereira da Silva, médico macaense/quissamaense, morre no Rio de Janeiro. Membro de uma das mais antigas famílias das cidades de Macaé e Quissamã, este jovem médico prestava serviços na clinica São Lucas onde tinha uma grande gama de amizades devido ao seu espírito alegre e comunicativo. Carlos estava sempre em companhia das pessoas simples do interior de Quissamã que o procuravam para consultas ou mesmo para longas conversas sobre seus pais e avós. Sua presença feliz e jovem vai fazer muita falta a funcionários, amigos, médicos clientes que já estavam acostumados com suas brincadeiras nos corredores e salas da Clinica.

Carlos era filho do meu colega de longas e felizes conversas no saudoso INAMPS. Marcelino Carlos Pereira da Silva, seu pai, faz parte da história da medicina de nossa região. Com sua companheira Adriana, está sofrendo a perda deste belo filho que tantas alegrias proporcionaram a todos que com ele conviveu.

Contemporâneo de meus filhos Luis Cláudio e Ana Cristina, Carlos é de uma geração que está caminhando para os 40 anos e que eu vi crescer nas minhas entradas e saídas de casa onde eles sempre estavam juntos na alegria de suas juventudes.

Quissamã e Macaé estão de luto. São duas cidades que conhece, de perto, todo potencial de carinho que Carlos, seus pais e seus avôs sempre distribuíram a todos que com eles conviveram.

Seu avô, Amílcar Pereira da Silva foi um dos homens mais ilustres que viveram em nossa comunidade. Vindo de Minas Gerais, espalhou sua genética pela região e foi um dos incentivadores da cultura nas duas cidades. Em Macaé, ele construiu o antigo Colégio Caetano Dias. Carlos era parecido com seu avô nos gestos trejeitos e no falar compassado na timidez que caracteriza todos os bens mineiros...

Tentava acompanhar os passos profissionais de seu pai na medicina e esbanjava sorrisos por todos os lados como se sua presença junto à comunidade tivesse período de esgotamento. Quem conviveu com Carlos jamais soube de seus problemas interiores, comuns a todo mortal, e que não era sentido em suas falas e atendimentos. Não deixava que aflorasse seus sentimentos e evitava, com isso, passar as tristezas que, às vezes tomava conta de seu pensamento.

Nas poucas vezes que tive contacto com ele, nos últimos anos, era só lembranças e recomendações a todos que me cercavam e que ele sabia serem seus amigos

Às 12 horas de hoje, 12 de Agosto de 2007, ele foi sepultado em Quissamã.. Centenas de moradores, amigos, colegas de profissão estiveram presentes e confortaram Marcelino e Adriana nesta dor...

O REBATE, que sempre esteve presente na história de Macaé e Quissamã, durante seus 75 anos de existência, se una a dor de todos que conviveram com Carlos Magalhães Pereira da Silva, o nosso “Carlos de Dr. Marcelino”, nesta perda tão prematura...(José Milbs de Lacerda Gama editor de www.jornalorebate.com )

6.8.07

ELIETE LACERDA SANTOS DA COSTA....

ELIETE LACERDA SANTOS DA COSTA, nasceu em MACAÉ onde morou até se casar com o português Antonio Fino da Costa. Filha de José de Moura Santos e Maria Leonor Lacerda Santos morou na Rua Doutor Bueno, famosa Rua do Meio. Estudou no Colégio Macaense, freqüentou as lindas e inesquecíveis sessões dos Cines Taboada e Santa Izabel. Uma das jovens mais bonitas de sua época era uma das mais assíduas presenças na Praia de Imbetiba, point social da região nos anos 50 e 60. Gostava de visitar o FAROL VELHO DE IMBETIBA em suas caminhadas.

Eliete mudou-se para o Rio de Janeiro e foi morar com sua Tia, Ondina Lacerda Coelho e com seu Tio Jonas Lacerda Coelho, na Rua Araxá, 522, no Grajaú. Foi ali que ela conheceu o grande amor de sua vida e com ele teve duas lindas filhas: Maria Eduarda e Maria Clara.

Durante a infância de suas filhas, residiu na Rua Caruaru e, mais tarde mudou-se para a Avenida Atlântica em Copacabana. Quando tinha 6 anos de idade, Eliete morou no Bairro Del Castillho com seus pais e seus irmãos José Mathias, Nelson, Maria Clyce e Terezinha. Ali era uma das mais alegres meninas do Bairro Operário do Rio de Janeiro e foi uma grande tristeza para toda a comunidade sua volta para Macaé... Praia de Imbetiba

Em Copacabana continuou sua existência de afeto, desta vez, voltada para suas filhas e neto. Na morte de sua querida irmã Maria Thereza Lacerda Santos e de seus pais abriu-se um vácuo em sua existência e, mesmo alegre e risonha com todos, a gente notava que a saudade falava por entres as poucas rugas que seu belo rosto deixava a mostra.

A natureza, com sua presença em todas as vidas deixa, para muitos que sabem da percepção, estes traços das saudades que ficam presas nas paredes das nossas memórias. Eliete não sabia esconder este sentimento e ele a acompanhou até o seu passamento...

Seus dois genros, casados com Clarinha e Eduarda, ambos Almirantes da Marinha de Guerra do Brasil, respectivamente Almte. Washington Luz e Marcus Fernando de Oliveira podem aquilatar o grande afeto que ela espalhou em vida a quantos tiveram o privilégio de sua convivência.

Seu único neto, Marcus Fernando Filho foi, sem sombra de dúvida, um grande presente que recebeu da natureza humana, o que a fazia entender a beleza da Perpetuação da Espécie...

Na qualidade de primo, quero deixar acessado em todos os sites de buscas do mundo, esta homenagem que faço em nome de todos os parentes de Eliete Lacerda Santos da Costa que, em vida foi um exemplo de amizade e carinho com todos que tiveram o privilégio de conhecê-la. (José Milbs de Lacerda Gama, escritor e editor de www.jornalorebate.com

2.8.07

SILENCIO NAS ARTES. MORRE O PROFESSOR DAVID....

PROFESSOR DAVID MORRE EM CAMPOS E É SEPULTADO EM MACAÉ


Uma das mais alegres presenças nas nossas ruas e que sempre se destacou pela simplicidade e inteligência, o Professor David Nunes Pereira faleceu ontem na cidade de Campos.

Paulista, David, veio para Macaé aos 35 anos. Dedicado ao Magistério com especialidade em Inglês foi se afeiçoando a todos os macaenses e se juntando as nossas histórias. Colunista de O REBATE nos anos 67/76 ele assinava uma página, até então inédita em jornais de interior. Sua coluna era aulas de Inglês que ele passava para os leitores e tinha, ao lado, a tradução.

Sempre a frente de seu tempo, ajudou na fundação do PT que, por muito tempo funcionou junto a seu curso na Rua Julita Oliveira.

A vida de David sempre foi marcada pelo carinho ao trabalho. Pintor, Artista Plástico, poliglota e exímio contador de histórias. Despreocupado da matéria levada à vida como ela deveria ser levada pelos grandes homens que se dedicam a arte. Não se cansava de falar de sua prole. Seus oito filhos: Davidson – Andreo – Alexandre – Eduin – Agatha – Anderson – Paulo e Eduardo Mendez Nunes Pereira ele ensinou a arte das tintas e do convívio com o natural. David fazia questão de participar de todas as transformações sociais de nossa comunidade.

Participou da criação da Escolinha de Artes de Macaé e das mais célebres exposições que a cidade teve no curso destes 40 anos de sua vivencia na comunidade. Nos anos 60, quando O REBATE estava sendo objeto de censura e perseguição policial ele sempre acolha nossas preocupações, espantando a tensão e brincando como se “tudo isso iria passar e que não passavam, eles, de tigres de papel. Falava em inglês e todos sabiam que se tratava de um apoio a nossas lutas...

Ultimamente David não estava muito satisfeito com o Partido dos Trabalhadores. Continuava filiado, sabendo de tudo e de todos mais não aceitava determinadas posições à direita de alguns setores do PT. A última vez que tive contato com este velho guerreiro de nossas ruas ele perguntava sobre Pianos. David conhecia tudo de piano e buscava algum para um seu amigo. Nos intervalos de nossa conversa, dentro do Ônibus do Novo Cavaleiro, a gente sentiu que o nosso afeto era muito maior que a distancia de nossas casas.
Dona Maria Mendez da Silva, companheira de lutas e alegrias do nosso David, as condolências de tuda equipe de O REBATE. Sabendo ela que o exemplo de carinho e afeto que seu esposo espalhava por onde ia e vivia, ficará nas lembranças de todos os moradores da Região do Petróleo...
Embora morando no mesmo Bairro, pouco nos víamos. Macaé perde o “nosso Professor David do PT”...(José Milbs de Lacerda Gama editor de www.jornalorebate.com )

Sobre David, assim se expressou nosso diretor Moctezuma: "moctezuma diz:

assim foi o prof. David; bem falante, convincente, altivo, entusiasmado, o "BONDE DO BEM DE MACAHE" ..

Uma colega do David Armando escreveu:

"Foi muito bom para Macaé a presença do "nosso Mister Davis" como ele gostava se ser chamado nas aulas de O REBATE".

Assim falou o Companheiro Caxeta:


Bom dia Milbs,

Confesso que estou lendo a reportagem do professor Davi em lagrima, primeiro porque não sabia do seu quadro de saúde, já que ele nunca comentou sobre isto, e não tive oportunidade de render as ultimas homenagens ao nosso professor. Digo tudo isto, porque ultimamente o professor, o companheiro, o amigo Davi estava trabalhando conosco em Cabiúnas e sempre que eu podia ia até sua sala ao lado para discutir política, falar sobre o partido dos trabalhadores, sobre o trabalho, sobre a vida, ouvir as sua piadas, era um grande otimista. Em algumas vezes, fazia questão de almoçar junto e deslocávamos de pé até o restaurante, e ele no alto de seus 70 anos, cabelos grisalho, sempre sorridente, cumprimentava a todos pelo caminho, além de exibir a sua saúde. E que na última vez que eu lhe vi, tivemos oportunidade de subirmos juntos, almoçar e retornar juntos, jamais poderia imaginar que aquele almoço seria a nossa despedida.

Um dia entrei em sua sala naqueles momentos tenso em que muitas vezes o trabalho nos reserva, quando não conseguimos enxergar o horizonte e estava lá o professor Davi com sua fala arrastada e expondo os seus conselhos: E aí professor, repondia e aí Caixeta quando a coisa está difícil, mudamos nem que seja o nosso visual, esta me vendo, deixei meu cabelo crescer, estou mudando o meu visual. Imediatamente lhe respondi que faria o mesmo em sua homenagem e em nome das mudanças, respondeu: quando crescer vem aqui para que eu possa pintar o seu retrato.

Conheci professor Davi em um de seus discursos no encontro do PT na câmara de vereadores, quando falava da possibilidade das mudanças que o Brasil precisava, quando acreditávamos que a solução do Brasil era um trabalhador na presidência, quando éramos perseguidos por sermos sindicalista, que continua até hoje. Davi era um grande maestro na arte da oratória, confesso que nos deixou um legado, e sempre demonstrou que temos que ter esperança, sempre.

Dessa forma, retorne a pátria espiritual, vai professor Davi, Vai com Deus... Caxeta

Sobre o Mestre, politico e artista, assim falou Eliane Geronimo:

Professor Davi deixa saudades e ensinamentos.

Conheci o mestre Davi como não poderia deixar de ser, nos grandes movimentos
em nossa cidade na ultima greve geral, paramos a cidade, lembro-me com
saudades dos tempos que éramos chamados de malucos, particularmente sinto-me
honrada de ter conhecido e feito parte dos grandes movimentos políticos, e
sindical em nossa cidade, eram loucos xiitas?Do significado raízes, sinto
saudades dos grandes companheiros, como ele verdadeiramente mestre na arte
da cidadania, na luta de um país justo, sem exploradores e explorado,
aproveito para lembrar outros camaradas.Magé, Carlos Martins, Ivânia,
Arlene, Tavares, in memória Mario do Carmo.Entre outros.Profundamente
saudosa.
Eliane.

Sabrinha Salgado fala da presença de David na vida da região e escreve:


Grande saudade deixara nosso querido professor David, alma nobre,
própria daqueles que não se traem, nem se deixam levar pela soberba,
mantendo-se firme em seus propósitos. Carismatico por natureza...
sabia nosentusiasmar com seu jeito singular... com a irrevêrencia daqueles que sabem
o seu próprio valor... para nós que o admiramos sua imagem e conduta para
sempre ficará gravado em nossas lembranças. Abraços fraternos
Sabrina Salgado.

31.7.07

SAUDADE DA LAPA BOÊMIA DE MINHA JUVENTUDE....

MINHA LAPA DOS ANOS DE GLÓRIAS

Quem é malandro?




Quando trabalhei na rua do Acre numa Importadora e revendedora de mercadorias de Secos & Molhados, recebia cartas de minha avó Alice Quintino de Lacerda pelas mãos de caminhoneiros que iam até este entreposto comprar alimentos que viriam abastecer a cidade de Macaé e as cidades visinhas. Eram os comerciantes Amphilophio Trindade, Erotildes Monteiro e Elpidio Costa .

Um destes caminhoneiros era o Raphael Monteiro , filho de Erotildes que morava numa casinha velha na esquina da Rua do Meio com Júlio Olivier.

A ida ao Rio era numa estrada de chão e mesmo assim chegava mais rápido que o Correio. A vida e o trabalho na Rua do Acre era uma experiência que marcou minha juventude. Trabalhava na Rua Leandro Martins, perto da Praça Mauá e pude tirar proveito deste tempo bom do Rio de Janeiro.

As ruas que faziam encontros com a do Acre, até a Central do Brasil tinham sotaque Lusitano durante o dia e a noite tudo se transformava. Já morava num conjugado em Copacabana e freqüentava a noite nas imediações do meu trabalho que era o ponto alto da boemia do Rio de Janeiro: Praça Mauá e periferia.

Em Copa era uma mini/burguesia ascendente e na Mauá uma pseudo/burguesia decadente. No final da noite não havia esta diferenciação. Gente do Bolero junto com as meninas da noite que furavam cartão no Dancing Avenida ou no Dancing Brasil tomavam café com leite pingado juntas com a malandragem da Riachuelo, Mauá e Cinelândia. Travestis desta época era chamado de viado mesmo e Sapatão de Fanchona.

Os palavreados nasciam na Lapa, subiam os morros e iam para Copacabana e Leblon. Vez ou outra chegava a Tijuca quando passavam com destino a Vila Izabel. A malandragem, os Proxenetas e Cafetões se esbarravam nas vielas dos becos do Centro e se podia notar o respeito quando, num balanço mágico de corpo, se sacava quem tinha ou não tinha navalha no bolso de trás.

As brincadeiras de "Tem Pente Ai"?, levando a mão na bunda do amigo, nasceu nestas buscas de navalhas escondidas. Nesta época, o Rio de Janeiro, lançou um pente que se abria em formato de navalha em homenagem a estas escondidas armas.

Havia um bandoleiro (carne-sêcacarne-seca) que usava esta arma para cortar pessoas quando o bonde deixava as madrugadas com destino a Muda ou Santa Teresa. Depois de longas maldades humanas foi preso e quase linchado nas imediações do Arco da Lapa. Era uma afronta para a malandragem ter o símbolo de Satã e gente enlameando a área.

Isto era um pouco do Rio nos anos 50...

Sempre tive uma alma excessivamente curiosa e ia em todas. As vezes no Dancing Avenida na Cinelândia, outras vezes estava no Dancing Brasil furando os cartões e sempre que podia, no final da noite, uma esticada no Bola Preta, lanchava no Ponto Azul e dormia mesmo na Rua Riachuelo ou Visconde de Maraguape quando não na Frei Caneca. Só ia para casa com o Sol do meio dia.

Quanto a Praça Mauá, suas noites eram alongadas e alegres. As Boites ficavam até o dia clarear, o Novo México, então virava o dia com gringos bêbados cheios de dólares que caiam pelas calçadas sendo levados por travestis e prostitutas espertas.

Antes que estas noites tivessem inicio gostava era de ficar tomando chope preto no Amarelinho onde se podia ver desde Madame Satã, indo em direção aos bondes de Santa Teresa, até Orlando Silva se deliciando com suas pingas e chopes de colarinho.

Foi ai que conheci o famoso chope Preto do Bar do Luiz na Senador Dantas onde mais tarde passeei com Lúcia em nossa lua de mel nos anos 60. Interessante que quando estive na Lapa, andando na rua do Passeio com minha mãe Ecila, e falei de minhas andanças e passeios com Lúcia, ela disse que era um coincidência, pois tinha sido ali que ela passeava com meu pai nos anos 40, quando se casaram.

Ou a Lapa era mesmo um ponto turístico ou houve uma bela e divina atração nossa por este local tão boêmio do Rio de Janeiro.

Havia uma esquina macaense numa loja de Dandão e Gó na esquina onde se comia os melhores Galetos do Rio. Sempre que a noite caia e antes que os Dancings começassem o seu piscar de luzes avermelhadas e, o Amarelinho aindainda a punha suas cadeiras estendidas no calçadão, era comum a gente vevê muitos macaenses transitando no local.Pedro Paulo Viana, Enio Lima e Joãozinho, Jair e Jorge Siqueira, os irmaosirmãos AlvarezAlvares, Flamarion, Gurgel e uma dezenas de outros que a memória não põe nas pontas dos dedos que teclam. Era na loja dos irmãos de Aciollio Pena e dona Lopelina que estes macaenses passavam as tardes noites do Rio boemioboêmio dos anos 50.

O Rio de Janeiro foi uma escola onde não faltou nada. Estava ainda com l9 anos e tudo estava no tom do afloramento. Em Copacabana freqüentava a turma do Edifício Camões que era onde se concentrava a turma da Figueiredo Magalhães, Serzedelo Correia, Siqueira Campos, Santa Clara e toda a extensão da Atlântica conhecida como posto 4.

O Camões era um Edifício considerado o point dos anos 60 em Copacabana. Tinha rua particular que saia na Praia e de seu lado esquerdo t um casarão onde morava o velho Assis Chateaubriand que a gente ficava olhando-o levar amigos até a frente da casa.

Sempre de terno preto, com uma faixa atravessada no peito parecia até camisa do Vasco. Era se não me engano algo relativo a Embaixadas. Baixinho, sempre rindo e cumprimentativo, nem sabia que a turma estava ali só para bisbilhotar o velho dono dos Diarios Assoiados. O muro da casa do velho Chateaubriand dava para a rua particular do Camões e era fácil ver seu vulto, elegantemente vestido, levando uma famosa cantora dos anos 50 até a frente da casa. Se não me engano era Ester de Abreu.

A turma do Camões tinha sempre encontros agressivos com a turma da Monte Negro e da Prado Júnior. Uma espécie de Rua do Meio, Aroeira e Praça da Luz em Macaé. Quando havia alguma festa no Bairro das Laranjeiras havia um encontro era fatal algumas brigas. Lembro de Camilo, Reco e outros que gostavam das brigas. Sobre isso falaria melhor Joelson Franco Trindade que, sendo mais velho no Bairro, foi quem me apresentou a turma e morou mais tempo no camões...

As noites no Rio de Janeiro eram como uma faculdade de vivências O Novo México com suas bailarinas importadas de Caxias ou de Buenos Aires tinha o ar refeito de luzes que piscavam em coloridos pobres e danças desconcertadas por marujos desengonçados. Num canto da boate, uns proxenetas contavam sempre dólares amassados tirados de bolsas e bolsos sujos por entre e sa e entra de dedos.

Alguns destes dólares eram surrupiados por novas prostitutas Alguns ingleses e noruegueses passavam em passos bêbados e balbuciando a linguagem universal do etílico. Neste inteligível universal caminham, transando a rua para os barco ancorados na Mauá. Um balcão ainda sujo com restos de cervejas brilha quando o Sol começava a penetrar seus raios nas mesas vindo da direção de Niterói.

Enquanto um velho, de braços ossudos e óculos picinez, reconta moedas que resvalam no Raio do Sol e vinha até minha mesa, no canto esquerdo do salão, que fede a cigarro, cuba-libre e caipirinha com vodka. Era assim as madrugadas no Novo México numa das esquinas perto do centro da malandragem no Rio de Janeiro dos meus l9 anos.

O gordo do edifício da Radio Nacional estava sempre pré disposto a um longo papo nas madrugas.

Era ele que se fazia de delegado ou xerife de um Rio de Janeiro que, longe de ser violento, era respeitado em todos os Cais do Mundo pelo alto índice de afetividades entre seus famosos marginais de navalhas e pernadas...

As vezes indo até o BOLERO ou o CIROCO na Atlântica se podia diferenciar o ambiente. Algumas mulheres eram as mesmas e, se não fossem os métodos, poderiam se considerar na igualdade do socialismo mundano tão rico em peripécias e tão bonito de vivenciar. No Bolero alguns gringos. A maioria dos freqüentadores era mesmo da zona Sul e alguns forasteiros turistas paulistas ou mineiros.

A ainda não havia sido divulgado o Beco das Garrafas e os inferninhos ainda eram coisa de meninos e cocotinhas.O “Ciroco” era uma mini-boate. Havia o esbarramento com artista famosos que moravam em copacabana e iam nas noites.

Um piano tocado por Agostinho dos Santos em inicio de carreira e alguns boêmiosboêmios vindo do Antonius, ou do Jangadeiro, do barril l800, ou do Zepelin de Ipanema.

O Rio de Janeiro para mim, um menino saído das ruas empoeiradas de Macaé, tinha um caráter de curiosidade e encantamento. Claro que moleque criado nos bast fonds de Macaé, conhecendo desde Ermita até o Quadrado, passando por outras tantas das nossas noites, o Rio era como um Segundo Grau ou um Vestibular. Como não me dava bem nas aulas escolares, nestas aulas ia me saindo com notas acima de 7. Não entrava em bolas divididas nas noites e sabia onde estava e andava os meus limites e com isso fui sendo bem chegado ao ponto de em todos os mundos cariocas ter me dado otimamente bem como se estivesse sentado num barzinho das ruas puras de minha cidade.

O Barril l800 era onde se via os que podemos chamar de pequenos burgueses em alta e a classe média sul./norte em roupas de grife. A maioria era formada por freqüentadores do Alcazar, outro point da beira do mar de Copacabana, e que era onde se podia tomar de fato o melhor chope. Só era comparado ao chope do amarelinho ou do bar do Luís da Senador Dantas.

Quando ia no Jangadeiro era hora de se ver e olhar os velhos e famosos escritores e cronistas. José Carlos de Oliveira, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, e alguns dos novos escritores que viriam criar o Pasquim. O Zepelim era onde a concentração ficava por conta dos que viriam ser a jovem guarda dos anos 70. Nas mesas, desde Elis Leis Regina a Pedro Calmon e Peregrino Júnior. Ali também era presente um macaense da Velha Guarda. Beto Reis que com seu comércio de móveis TORA acalantava os desejos de artistas com seu designer moderno e bonito.

Uma mistura de música clássica com rock ou Bossa Nova.. Eu ainda não conhecia o Chico Chaves o que veio a se concretizar nos finais dos anos 70 numa revista do MAM que escrevi texto. Era a época dos finais da contra- cultura e neste revista falavam todos os artistas que vivenciavam a história. Chico Chaves entrevistava Caetano, Gil, Chico Buarque e outros. Veio até onde eu estava e me perguntou que eu fazia no momento em termos de artes. Falei que esculturava minhas formas em sorvete. Chico não perdeu tempo e tacou no jornal do MAM que eu estava esculpindo em sorvete.

Assim era este Rio de Janeiro onde as noites emendavam nas manhãs e o Sol se punha com toda a sua beleza dourando toda a extensão de Copacabana.

Foi um bom Segundo Grau na escola da vida. Mais tarde alguns macaenses foram tomando conta das noites. Lucas Vieira, de seu Manduquinha, foi tocar com Ivon Curi. Lucas, um dos mais requisitados pianistas das noites, recebia sempre os macaenses onde quer que tocasse.

Havia uma Macaé sempre presente no Rio de Janeiro e as noites haviam encontros que se prolongavam por horas e horas. O Rio ainda tinha o Ccheiro da e Ppaz que ainda não conhecia o arranhamento do desnível social. Morro era mesmo morro do Chão de Estrelas e a Lapa tinha ainda o cheiro das pólvoras da torre da Igreja que faltava e que Adelino Moreira colocou no Samba que Nelson Gonçalves cantava. Bater samba em mesa do Amarelinho em caixa de fósforo e harmonia nos pés era toda noite nas madrugadas do Rio nos anos 50.

As sinucas eram freqüentadas e o Carne Frita tomava seu café com leite calmamente antes de fechar o jogo da bola Vermelha ate a Preta , matando a 5, pegando a seis duas vezes e a sete no fundo. Era mesmo uma Lapa gostosa dos bondes de Santa Teresa e saídas para Tijuca e Meier.

Tudo girava em torno de um Rio de Janeiro bem interior e bem Carioca.O Bar Ponto Azul era sempre freqüentado por Carne Frita e sua turma das sinucas da Riachuelo e Centro. Madame Satã subia as ladeiras do Arco da Lapa num gingado típico das grandes marcas da malandragem.

A ausência de Noel era comentada por gente que o conheceu nas esquinas da vida do Rio de Janeiro. Benedito Lacerda compunha Normalista e Telefonista esperando uma ligação da cabina da telefônica de Macaé na esquina de Teixeira de Gouveia com coronel Amado. Célio Ferraz, que morou na casa dele no Rio, me conta, numa madrugada alegre no Bar São Cristovão, onde o Sylvio nos servia as delícias de um Feijão Pingado com Curvina Frita, que Benedito Lacerda criou as duas mísicas vendo as menininhas saírem do Ginásio Macaense vestidas de Azul e Branco.

A musica original era mais ou menos assim. “Vestida de Azul e Branco, trazendo um GM num bolsinho encantador..Depois ele adaptou. Trazendo um sorriso franco.

GM era a sigla de Ginásio Macaense que todas as meninas usavam na altura dos seios.

Como a ligação estava demorando para o benedito falar com sus Ondina, ele criou a “Telefonista, segundo o nosso CPF (Célio Pimentel Ferraz)...

José Milbs de Lacerda gama (editor de www.jornalorebate.com )

14.7.07

BRASIL E PORTUGAL PERDEM A VÓZ DE ABILIO HERLANDER


BRASIL E PORTUGAL PERDEM A VOZ DE ABÍLIO HERLANDER
Cantor, Poeta, Compositor, alegre locutor e amigo das noites...
Uma perda para o mundo das artes cênicas...




O ÚLTIMO DOS GRANDES 'SHOW BUSINESS' É SEPULTADO EM MACAÉ





A história da Música Popular do Brasil e de Portugal está de luto. Morre em Macaé, cidade que escolheu para ser sepultado, uma das mais lindas vozes do Cancioneiro Popular do Brasil e de Portugal. Abílio Herlander Ferreira Leitão era seu nome de baptismo:
"Lisboa só minha - Lisboa querida, eu sei que te cantam em prosas e versos, que todos te amam ninguém como eu!... pois tu és só minha, e na minha infância te deste todinha, todinha para mim. Não tenho ciumes , de tudo que falam pôs tuas entranhas fundiram, como as minhas esbanjando amor, tu te deste a medo. Só tuas esquinas sabem o segredo, ninguém mais ninguém...
Teus bairros, teu Tejo, teu céu e teu mar. Teu cheiro, teu ar, teu modo de olhar em tardes de sol, em noites de lua com dias de chuvas em noites perdidas...
Garota, varina, vaidosa, menina: Do dia para a noite jamais te vi pois segui viagem pelo mundo fora e só hoje penso o quanto perdi. Então eu sonhava, deitado a teu lado e, sabes - amor - nunca te esqueci!...
Joguei com a vida atrás de aventuras mais tua ternura jamais encontrei. Conservo o aroma, tenho teu sotaque e voltei a pouco para te rever.Te encontrei mais linda. logo que te vi, nem pude falar. Olhei-me, beijei-te, puxei-te em meus braços, e tu como outroras, destas-te ao meu lado e tornas-te a amar..."

Este poema de amor a sua Lisboa. Assim como O REBATE que nasceu em Lisboa e veio para Macaé, Abílio fez a mesma caminhada. Lisboa/Macaé...
Poeta, cantor, compositor, um dos mais belos homens dos anos 50 ele se casou com a Ex Miss Bahia e 2a. colocado no Miss Brasil. Sonia Rocha foi a baiana que sucedeu Marta Rocha e tocou o aventureiro coração de Abílio. Desta união nasceu Sabrina que é vista na foto com ele e com sua irmã do segundo casamento. A foto é de 1989 e ela mostra Abílio, Sabrina e Cristina. Foi num momento solene na vida deste mestre da poesia e do canto. Momento em que a Casa de Portugal de São Paulo prestava honras a este grande vulto da vida musical Brasil/Portugal...

EM A FLOR DA PELE ele aprofunda seu amor a humanidade, aos seus mundos... Um poema simples como simples foi sua vida. Despido das lutas pela matéria, Abílio foi um ser "carimbado pela criação". Seu coração Brasil/Portugal era a sensibilidade que tocava e o fazia viajar por mundos inimagináveis a seres comuns.
" A flor da pele, os teus sentimentos, as tuas loucura, tudo que procuras... Que te faz vibrar a flor da pele..." Centenas de Poemas, Canções e Versos ficam na História da Musica e na memória dos que tiveram o privilégio de conhecer e vivenciar Abílio. São páginas lindas de belos poemas. Desde a FOSSA, SOMBRAS, AQUELA GAIVOTA (sou eu), UMA PEDRA NO CAMINHO, VIDA DE ARTISTA ele fala com o natural, se integra a mãe natureza e põe a mostra as entranhas de seu mundo interior que poucos puderam penetrar e conhecer...

"Eu sou aquela gaivota
e já fui um passarinho
e para fazer meu ninho voei tanto que cansei...
Também já fui cachorrinho, vira lata, maltratado.
e vaguei, vaguei, vaguei...
Fui um cisne muito branco naquele lago de Rei...
Já fui cavalo de raça. Quantas mulheres conquistei. Montado sobre seu dorso. Galopar eu galopei. Minha crina solta ao vento. E, para onde fui, não sei...
Como homem, voei alto
Por serras e cordilheiras
Voei de muitas maneiras
Por rios montes e vales
Sá passei muitas fronteiras
Atravessei oceanos
E com aves me cruzei
Com esta vida agitada
Nem em ti eu reparei
Estou triste e desolado
Só com saudade fiquei...

(Poema feito por Abílio às 6,30 da manhã de um dia e mês do ano de 1990 em São Paulo que encontrei no "A flor da Pele", revista editada na Casa de Portugal).








PORTO E LISBOA SAUDADES....
Paulo Navarro escreveu:"De volta a Portugal, 35 anos depois para rever os amigos Francisco José,Tony de Matos Raul Solnado, Alberto Ribeiro e quem não canta mais como Luis Picarra...





Falaria mais sobre este grande vulto da Musica o Roberto Corte Real, com seus anos e anos de Rádio, TV e produtor de discos na USA e no Brasil. " Quando se anuncia uma apresentação de Abílio Herlander nos principais Teatros ou nos sofisticados Clubes nocturnos, temos certeza que passaremos agradáveis momentos da arte cênica e musical da grandeza dos maiores "show men" da actualidade"...



Em RAÍZES LUSÍADAS em dez. de 1989, Santos Mendes republica este texto poético de Herlander: " - Gostaria de ser o que sou. Mas não sou...O homem de briga... O homem do asfalto... O homem razão... Perdi-me no espaço. Neste pouco espaço. Nessa solidão... Gostaria de ser, o que fui e não fui... o que sou e que não sou. Neste sonho impossível.
E arremata o grande critico de Portugal Santos Mendes: " O poeta Abilio Herlander por certo surpreendeu muita gente que o conhecia o admirava e o aplaudia através de suas apresentações como brilhante showman que sempre foi.
O poeta Abílio Herlander estravassa o seu grito de ser, no parto normal em contacto com o mundo exterior"...


81 anos de uma vida. Visualizando, como se estivesse numa mesa de Poker, numa Carreira de Campista, numa cartada pensada de um Bacarat ou, até mesmo adivinhando a "carta" que vinha num 21. Marcado pela vivencia, Abílio brincou com a vida. Alegre falante "jogava sempre com os entendimentos humanos como se já tivesse vivido várias e longas vidas.
Jamais brefou Sabia entrar e sair na hora certa de todas as jogadas que a vida lhe punha adesafiar sem perder a cumplicidade e a naturalidade com o belo de uma criação lusitana cimentada nas ruas empoeirada de Lisboa e do Porto...

"O Menino Abílio das Noites Paulistanas e de Las Vegas" teve mundos a seus pés e jamais se apegou aos bens materiais. Sem perder a dignidade de um grande gentlman, levou até o fim a beleza da sua vivência e o afeto de todos que com ele conviveu.

Um espírito iluminado pela Harpa que tocam os deuses no Olimpo, Abílio sabia brincar com as palavras e com a impostação de uma voz inigualável. No palco da vida não deixa lucro nas bilhete rias. Contemporâneo e amigo dos grandes da musica como Amália Rodrigues, Villaret, Laura Alves, Assis Pacheco, Abílio atuou na Espanha, Las Vegas, Rio de Janeiro.

As noites brasileiras perdem um dos últimos de seus brilhantes representantes. A escolha de Macaé para seu final de vida não deve ser olhado por São Paulo e Lisboa como um ato de segundo plano. Abílio quis ficar perto das pessoas que sempre amaram e ficaram dele longe num grande período de existência.
Sabrina, Cristina e sua atual companheira Lia Herlander todo o afeto de O REBATE pela sentida perda. E por que não estender este sentimento a sua ex esposa Sonia, seu esposo Aldelmayres, seus ex-cunhados Raymundo, Paulo, Ângela, Ismael e José Rocha? A todos eles, Abílio sempre esteve presente na lembrança feliz de um convívio alegre e descontraído...

O REBATE gostaria de colocar a leitura de todas 350 mil visitas que o site www.jornalorebate.com conquistou ao longo de seus 75 anos de Histórias os lindos poemas e composições desde Mestre das Artes Cênicas. No entanto, nosso espaço se torna pequeno. Transcrevemos o texto de seu Poema MÃE onde Abílio fala a sua mãe: Que mãe fosto tu?...
Que foi que te dei?...
Tu, tudo me deste. Sei que sofres mãe... eu sofro também. Porque estás tão longe. porque me criaste...
- O que semeei, nada quase nada. Levamos da vida, apenas momentos. Quero morrer jovem, assim como tu. Nunca vou esquecer-te velhinha menina. Pois não há no mundo UMA MÃE COMO TU....

Portugal, Lisboa, Porto, São Paulo, Rio de Janeiro. Las Vegas e, finalmente se cala, em MACAÉ, a voz que encantou mulheres e multidões...
Uma homenagem a Abílio Herlander Ferreira Leitão deverá ser feita pelo seu genro e amigo Rogério Salgado dando o seu nome a Avenida principal do seu loteamento em Macaé Justa e merecida que poderá contar com a presença de sua filha Cristina Herlander, também cantora e dona de uma linda vóz...( José Milbs, editor de www.jornalorebate.com )


10.7.07

MEUS NETOS, MINHAS HISTÓRIAS, MEUS FILHOS E UM PETROLEIRO DE 18 ANOS...

As paredes das memórias guardam. O PC pede e a gente escreve. Ontem meu filho de 18 anos, Zé Paulo, o mais jovem Empregado da Petrobrás, falava da alegria de ter 8 sobrinhos e eu 8 netos. "Empatemos"...rimos...



DA RUA DO MEIO À ESTAÇÃO:
UMA VIAGEM

Quando meu filho José Paulo, tinha cinco anos, pedia para contar histórias do tempo em que minha idade era igual à dele. Ele dizia que a sua "Tia Leila" do "Ana Benedita" queria saber coisas além das coisas que o escritor Tonito Parada deixou de escrever em "COISAS E GENTE DA VELHA MACAÉ".

José Paulo diz que "Toninho" Parada (ele chama de Toninho) é muito inteligente, dizendo ele que soube no Colégio. Confirmo que sim e digo que o Tonito foi meu Professor e do irmão da Tia Leila, Binho Ramalho, quando a gente estudava no Senai em 1953. Ele ministrava aulas de Fisica e Quimica para a gente. Gostava do Fluminense e tinha um humor muito aflorado quando seu time vencia. A mãe dele, disse eu ao Zé Paulo, era amiga de minha avó Nhasinha. O nome dela era dona Arthemia e uma irmã do Tonito, Anita, foi uma das mais lindas e inteligentes professoras que tive no Colégio Luiz Reid...

Como José Paulo só acreditava em história que começa com ERA UMA VEZ, lá ia eu:

"Era uma vez uma cidadezinha muito bonita, que tinha uma praia de nome Imbetiba, de areia que a gente batia e caía sozinha do corpo, e que era dona de ondas esverdeadas e pedras cobertas de balsedos azulados". Uma das poucas praias em centro de cidade.

Era a praia mais bonita do mundo. Tinha uma bacia natural na qual a gente se banhava. Até pouco tempo, Marquinho Brochado, Jojó, Cláudio Santos, Niltinho e Renault brincaram nela. Zé Paulo não conhece nenhum destes amigos que falo. Mais parece entender que falo de minhas infâncias que sei ser igual a todas as infâncias do mundo...

As tardes eram umas misturas de Sol Azul e Céu Cinza-lilás. À noitinha, quando os sinos da matriz soavam e eram ouvidos até no Mercado de Peixes , barcos entrelaçados de gaivotas e tesoureiros saudavam pescadores que vinham do alto mar. Estes pescadores iam e vinham nas ilhas do Francês, Papagaio e Farol. Traziam peixes, Não haviam os atravessadores e eles mesmos vendiam o produto. Com cestas nas cabeças, com um pano enrolado para não machucar, eles iam anunciando: - olhe o Gordinho: tenho pescadinha, espadas, ciris e camarão... nas cestas, alguns pedaços de galhos de árvores conservam o peixe fresquinho e com a gueurra vermelha. Neste tempo não havia gelo para colocar. Até por que se colocasse o degelo ia molhar o vendedor/pescador...

Nas praças, gente de idade mais que a nossa, era cumprimentada (naquele tempo se dava "Bom Dia", "Boa Tarde" e "Boa Noite").

Numa Estaçãozinha de Trens, a vida era mais movimentada que no resto da cidade. De tarde, vinha o EXPRESSO. À noitinha, vinha o RÁPIDO e, pela madrugada, num apito que sonorizava música, chegava o NOTURNO.

Muita gente descia do trem. Não havia os desastrosos ónibus e, lá do outro lado da linha, onde mora "Tia Leila', não tinha casa nenhuma". Havia apenas uma casa onde morava uma senhora de nome Filhinha. Era nossa prima.

Era uma "viagem da Rua do Meio até lá". Vielas pela Chácara do Chico Lobo; pulando valas na Praça da Luz, onde foi enforcado o Motta Coqueiro que seu bisavô Emílio conheceu ; desviando de cachorros no tronco do Pé de Tamarindo, olhando a bela casa de dona Yayá Vieira; dando uma passadinha em Conceição Almeida, Izolino e tia Domingas. Enfim, era um dia de sagrada alegria para mim, menino na sua idade, contava eu para José Paulo.

Esperando o trem, sempre havia 4 carros de Praça, todos muito reluzentes. Os donos ficavam horas e horas passando flanelas até que o trem vinha. Era sempre com um pequeno atraso, o que nos dava mais euforia. Os motoristas dos carros eram pessoas muito queridas em nossa pequena e meiga comunidade. Otacílio Caramelo, que é pai do ex-marido de sua Tia Leila e que foi o primeiro proprietário do Rápido Macaense, o pai de Moadyr Vitorino, e um homem muito alegre de apelido "Papa Capim".

- Uma cidade muito feliz, esta do meu tempo de sua idade, continuava com ele a minha história...

- Um dia, quando que a maldade humana habitou a cabeça de um governo, desativaram os trens que carregavam a gente.

Ai, a Estação ficou triste. Nem o Seu Petrônio, pai de Ricardo e Roberto, passou mais com uma Chaleira de Café e com o prato de Mãe Benta pela Rua da Estação.

Naquele tempo, ainda não tinham inventado a Garrafa Térmica, que conserva mais fria que a velha chaleira de ferro...

O apito do trem cedeu lugar às buzinas e a Estação ficou com cara de velho de asilo, só, pensantemente aceso e infeliz..

Quem sabe, um dia, algum menino que hoje tem sua idade,não governa o Brasil e faça voltar os trens.

- E aí, como toda historinha, ela termina com José Paulo respirando profundamente.

Hoje, quando o vejo com 18 anos, alçando seu voo de adolescente para rapaz, me veio esta vontade de escrever e republicar este texto de meu livro LUAR DE IMBETIBA.

6.7.07

MORRE O ARTISTA QUE MUSICOU O HINO DE MACAÉ


O TELEFONE IRÁ TOCAR...

NÃO PIANIZA MAIS O GRANDE LUCAS VIEIRA ( Em fto do arquivo particular do fotógrafo Manel olive vemos o grande pianista Lucas e seu amigo Jose Domingues Araujo filho )......................................................

Do outro lado da linha o meu amigo Allan Birosca que me avisa: - - Pinguin, Luquinha Vieira esta muito mal no Hospital de Macaé. Era uma voz que trazia toda a história da musica Brasileira e Macaense. Parecia que o meu velho ex-cronista dos anos 70, Birosca, que assinava uma linda página com o nome de DESFOLHANDO A MARGARIDA, estava com a fala enbargada pela emoção nos seus 80 anos vividos, muitos deles com o velho artista Lucas Vieira.

Revendo os arquivos do O REBATE pude sentir o quando este amigo era querido na cidade onde nasceu. Allan, Cesário Parada, Sérgio Quinteiro, Antonio Alvarez Parada, Luiz Ernesto, todos ex-colunistas do "O REBATE" citavam a presença de Lucas Vieira nas noites alegres do Tenys Clube, Abaeté e do Ipiranga. Eram os saudosos momentos de sublimação da comunidade macaense, ainda engatinhando no progresso e com suas ruas empoeiradas e alegres. Lucas era o Mestre das domingueiras; o grande astro que a todos encantavam com seus dedos, delicadamente corridos nas teclas dos velhos pianos da região de Petróleo ainda por ser descoberta e virgem.

José Domingues Araújo Filho, Pedro Paulo de Sá Vianna, Domingos da Costa Peixoto, Gurgel, Manoel Nunes "Nego" e outros, faziam parte de seu grupo seleto de amigos. Sempre rodeado de expressivas vozes da Musica Popular Brasileira, o nosso Lucas foi para o Rio de Janeiro. Morava em Copacabana onde eu o encontrava nas quebradas das Noites Cariocas. Pianista exclusivo do Cantor Ivon Curi, o macaense Lucas, filho do velho "Manduquinha do Cavaquinho", correu mundos em várias excursões. Sempre que chegava no Rio de Janeiro eu o encontrava. Às vezes, pianando no “Siroco”, uma Boate que tinha na Avenida Atlântica, às vezes era no “Bolero” e outras tantas ocasiões era nos Dancing Brasil e Avenida na saudosa Lapa. Ivon Curi não gostava que ele “dessa canja” nas noites. Achava que o Boêmio que nasceu com Lucas, pudesse interferir nas suas andanças pelo social do Rio de Janeiro. Queria exclusividade. Lucas não se quedava. Tinha herdado do velho Manduquinha o gosto pela musica do POVO e não se desligava disso. Como seu pai, que sempre tocava nas ruas macaenses, nos bares soturnos de uma Macaé que se esvai no esquecimento, Lucas gostava das esfumaçadas luzes das Ribaltas Cariocas. Tocava no Novo México, aplaudido pelas “meninas da noite” e nunca deixou de tomar seu chope preto no “Amarelinho” ou no Bar do Luiz, na Senador Dantas. Nestes bares era sempre esperado pelos amigos macaenses Go e Dodão Penna e Ruy Pinto da Silva. As rodas de Chope no Amarelinho, Ponto Azul e Bola Preta só acabavam com o raiar do Sol.

Enio Lima, Joãozinho Lima. Os médicos: irmãos Alvarez Moreira (Dom Pepe) e Picanço Siqueira e Aérton Perlingeiro não faziam falta nestas rodas das noites Macaé/Rio de Janeiro. Lucas Vieira reinava com suas alegres gargalhadas e seu olhar de soslaio para quem passava como se estivesse querendo aumentar o grupo de amigos...

Foi numa destas madrugadas que conheci a Madame Satã, Nelson Gonçalves e Orlando Silva. Lucas era o anfitrião de todos os que iam para o Rio morar. Desde o Zepelim em Ipanema até o bast fond da Praça Mauá, ele guiava os amigos nas "pegadas das noites". Eu, como menino e um dos mais jovens, sempre estava lá para apreciar os longos papos que rolavam e eram todos eles sobre as pessoas de suas infâncias nas ruas de Macaé. Foi assim que eu aprendi a conhecer grandes histórias de nossa região e que hoje, no auto-exilio de minha morada, na ESTANCIA VISTA ALEGRE, posso passar para "O REBATE" e falar nestes vultos, que como o Lucas Vieira, futucam as memórias empoeiradas do autor e pingam nas saudades...

Quando a tarde começava a trazer os futuros boêmios para as noitadas da Lapa, Tabuleiro da Baiana e Praça Mauá, Lucas em companhia dos irmãos Agostinhos: Bueno, Ferdinando e Abelardo, virava-se e dizia: - "Vamos disputar na “purrinha” quem vai chamar o Birosca na Receita Federal, na Praça 15, para pagar a rodada de chope que já esta bem alta"... Uma pilha de redondos cartões estava a espera de um pagante.

Lucas Vieira, depois que aposentou das noites cariocas voltou para morar na região.Conceição de Macabú foi seu refúgio alegre e musical. Talvez até para poder aplicar seus conhecimentos e ensinar a muitos sua arte. Jamais quis ser professor. Queria ter liberdade para criar seus textos harmônicos.

Tem uma passagem histórica em nossa região de petróleo que poucos presenciaram. Macaé estava comemorando o SESQUICENTENÁRIO. O professor Antonio Parada, Tonito, como dona Arthemia gostava de chamar, foi convidado para organizar os festejos. Tonito, poeta e historiador, pensou num poema para homenagear a cidade. Nascia ai o "Hino da cidade" que publico abaixo em sua memória.

Lucas ouviu o poema de Tonito numa tarde/noite e disse: "vou colocar a música". Rindo, alegre, moleque como sempre,musicou o poema do Antonio Alvaréz Parada. Seus acordes estão por todas as escolas e vilas sendo cantadas em prosas e versos...

Gostava do contacto com a natureza e as Serras de Glicério, Óleo, Trapiche e Sana tinham sua preferência. Sempre irreverente, às vezes até introspectivo no falar, fez com que muitos dedos desfilassem nas teclas dos pianos sob sua maestria.

Com Maria José Borges Guedes fundou uma Escolinha de Artes e prestou serviços humanitários em várias instituições filantrópicas.

Herança musical de toda a sua família. Dalva, Flavinha e Ilma foram criadas e educadas ouvido acordes que vinham das tardes/noites de uma linda e aconchegante Carpintaria que existia no quintal da casa do Manduca. Lá ele construiu seu Cavaco e afinava os velhos violões que adornavam as madrugadas de uma cidade feliz nos anos 50 e 60. Madrugadas que o Lucas freqüentava e se familiarizava nos sons vindos dos irmãos Santos, Darcilio, Nelinho, Cidinho e Toninho que, com seu pai no Cavaquinho, animavam as serestas nas ruas e becos macaenses...Muitas destas sublimes serestas foram feitas no "Cazarão de Dona Urçulina", onde hoje é o Forun Abílio de Souza...

Sua morte faz parte de uma uma sinfonia que não acaba aqui neste mundo material.. Se existe alguma coisa além destas belezas que a gente palpa, Lucas deve estar pondo sua alegre gargalhada de menino irônico em harmonia com algum órgão numa dimensão ininteligível a quem fica.

Os sentimentos de O REBATE a todos os seus familiares. Lucas era um grande admirador de meus textos e, jamais imaginaria que fizesse seu obituário. Até breve....

(José Milbs de Lacerda Gama editor de O REBATE, boêmio nos anos 60 no Rio de
Janeiro)...

HINO DE MACA�
Letra de Ant�nio Alvarez Parada
M�sica de Lucas Vieira

Onde o mar beija a areia morena,
Onde o rio se encontra com o mar,
Onde o sol banha a terra serena,
Tu est�s, Maca�, a sonhar.

Maca�, nossa voz � a hist�ria,
A cantar teus encantos, teus c�us,
Tua gente, teus anos de gl�ria,
Um passado de tantos trof�us.

Longe o Frade teus campos domina,
A espalhar-se plan�cie sem par,
No horizonte o farol ilumina,
Os caminhos dos homens do mar.

Maca�, minha terra querida,
Que os anos te fazem crescer,
Para n�s tu �s terra onde a vida
Fica sempre em constante nascer.